Foto: Jéssica Moás de Sá

Poucos minutos depois das duas da tarde O Portomosense chegou ao local combinado com Ilídio Calvário, mais conhecido por Tuta, para que nos explicasse a origem da sua alcunha. Sem lhe conhecermos o rosto, interpelámos quem se encontrava na sua pausa para o café para nos indicar se o Tuta já se encontrava por ali. Ilídio Calvário ainda não tinha chegado, mas os 20 minutos de conversa com o grupo que se juntou na esplanada foram representativos do impacto que as alcunhas têm no Alqueidão da Serra. «Se pensar bem, não sei o nome verdadeiro da minha avó», «há muitas pessoas que só conheço pela alcunha e se me perguntam pelo nome próprio, não sei dizer quem é», afirmavam os presentes.

Foi por serem tão comuns, as alcunhas, que João Gabriel pensou, em 2012, retomar o trabalho manuscrito iniciado por Alfredo de Matos, alqueidoense que vivia em Lisboa mas que investigava frequentemente sobre a terra onde nasceu, e que reuniu parte das alcunhas existentes na localidade. A primeira tarefa de João Gabriel, jornalista e também alqueidoense, foi «passar a computador e trabalhar» o conteúdo presente no manuscrito. A partir desse momento e por perceber que aquela recolha estava «parada no tempo» optou por pegar no que estava feito e acrescentar, com as alcunhas que entretanto as novas gerações trouxeram e eliminando aquelas que, por razões várias, seja por falecimento ou por desuso, deixaram de fazer sentido incluir na lista. João Gabriel contou com a ajuda das redes sociais. «Eu tinha uma página de Facebook e pedi às pessoas do Alqueidão para porem lá as alcunhas que se lembrassem e corresponderam muito bem». A tarefa seguinte foi «aferir as alcunhas e conhecer os rostos que lhes correspondiam», explica João Gabriel, frisando que este é «um trabalho que nunca está concluído» porque o tempo traz consigo uma renovação.

Para todos os gostos

São números simbólicos, passam de pai para filho, refletem situações de vida, partem de peculiaridades de cada um ou são simplesmente diminutivos. São muitas e múltiplas as alcunhas que se podem encontrar na lista. O Alqueidão da Serra tem pouco mais de «dois mil habitantes registados» e a lista contém mais de mil alcunhas, por isso, garante João Gabriel, «mais de 50% da população é conhecida pela sua alcunha».

Para o jornalista, o facto de as alcunhas se terem enraizado vincadamente na localidade é um sinal de «comunidade». «O Alqueidão antes era uma comunidade serrana muito fechada, sem vias de comunicação. Havia uma grande cumplicidade entre as pessoas e as alcunhas eram uma forma de mostrar camaradagem e ternura», explica. João Gabriel diz ainda que as alcunhas são «uma forma de relação e até uma espécie de código social» e isso nota-se pelo facto de, ao longo dos anos, a tipologia das alcunhas ter vindo a transformar-se. «A mudança nas alcunhas é uma forma de perceber a evolução sociológica e cultural» das localidades e neste caso do Alqueidão da Serra: «Hoje as alcunhas são mais sofisticadas a nível do conceito, englobam muitas expressões que têm que ver com situações que estão na moda».

As estórias escondidas

«Há muito João, João da Lhuca só há um», palavras de orgulho de João Gabriel que evidenciam o carácter diferenciador que uma alcunha pode atribuir. Lhuca era a alcunha da mãe do alqueidoense que se chamava Maria de Lurdes e que, um irmão mais novo, tinha dificuldade em pronunciar. Para facilitar, quando queria chamar a irmã, chamava pela “Lhuca”. Hoje João Gabriel é o “João da Lhuca” e é «com muito carinho» que vê associado ao seu nome a alcunha da mãe.

Quem também não escapou foi Filipe Batista, presidente da Junta de Freguesia do Alqueidão da Serra. O autarca teve sorte. A alcunha que lhe atribuíram é de um avançado brasileiro que jogou em duas grandes equipas portuguesas, Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Portugal e que os adeptos não esquecem: Jardel. «Eu também tenho um tom de pele escuro [como o Jardel] e costumava jogar à bola com os meus amigos. Não sei se era por jogar mais na frente à espera da bola, mas fiquei o Jardel», conta o presidente.

Voltemos a Ilídio Calvário ou melhor, Tuta. É preciso recuar aos oito anos de vida para conhecer a origem desta alcunha. Estava na «segunda classe» e nesse dia a matéria era «uma história dos Reis de Portugal, onde se falava em rios», conta. Nesses rios «havia vários peixes, um deles era a truta». No alto dos seus oito anos, quando a professora perguntou a Ilídio como se chamava aquele peixe, em vez de truta, saiu “tuta”. A pronúncia errada valeu-lhe «quatro reguadas e um castigo» mas foi também a última vez que Ilídio Calvário teve, apenas e só, esse nome. No recreio, os colegas começaram a chamar-lhe Tuta e rapidamente isso se alastrou a toda a população. Hoje, Ilídio Calvário considera que Tuta é o seu nome e mesmo estando emigrado em França há 39 anos, quando regressa ao Alqueidão é sempre e para todos, o Tuta. Tem a certeza de que 80% da população não sabe o seu nome verdadeiro e isso não é algo que o preocupe porque acha engraçada a forma como esta alcunha se propagou.

Foto: Jéssica Moás de Sá

Conca já é alcunha de pai, filho e neto mas foi com Conca original que conversámos. Manuel Calvário estava «na primeira classe» quando «um rapazinho» da sua idade encontrou a sua mãe e perguntou: «Onde é que anda o Conca?», referindo-se a Manuel Calvário. O nome não tem relação com nada, foi fruto da criatividade do seu colega, que mal sabia o que estava a iniciar. «A alcunha passou para o meu filho e está a passar para o meu neto», conta o Conca sénior.

As alcunhas fazem parte da génese do Alqueidão da Serra, mas são transversais a toda a sociedade. Mais ou menos elaboradas, ninguém duvida que as alcunhas são uma forma de conexão entre as pessoas, que procuram observar nos outros aspetos que os definem. É no “olhar para o outro” que nascem, mas é com relações fortes que conseguem perdurar.