Foto: Manuel Sousa

Estamos em agosto, o mês das férias, do verão, dos emigrantes que regressam ao país e acima de tudo, o mês das Festas Populares. Embora nem todas se realizem neste mês, nesta edição damos destaque a esta tradição que se vai mantendo na maior parte das freguesias do concelho. Com a ajuda da população e também de pessoas que estão ou estiveram ligadas a organizações de Festas Populares, traçamos um perfil do que são hoje estes eventos. Que importância têm para as freguesias? A população continua a envolver-se da mesma forma? É o que queremos ficar a saber.

“As pessoas têm necessidade de fazer algo pela comunidade”

Em 2012, Nuno Silva foi juiz nas Festas da Pascoela em São Bento, uma das duas festas anuais realizadas na freguesia. Tem sido também mordomo quase de forma «anual». Os cargos a ocupar nas festas são escolhidos através do «processo de nomeação», no qual o juiz de um ano nomeia o juiz do seguinte. Neste aspeto houve «uma evolução» porque, se antes os juizes eram escolhidos sem consulta, hoje é-lhes questionado se querem cumprir este papel. Numa função que «requer muita disponibilidade de tempo, algum capital e um envolvimento muito grande», é importante perceber se as pessoas têm o contexto necessário para «executar esta tarefa num determinado ano», considera Nuno Silva.

O juiz escolhe depois «oito mordomos homens e oito mordomas mulheres». Duas juízas ficam encarregadas de «fazer uma oferenda» e é ainda nomeado um tesoureiro para ajudar o juiz com «contas». No ano em que foi juiz, Nuno Silva juntou, contando com todas «as pessoas que estavam na cozinha e na limpeza do salão», um total de «110 pessoas» para conseguir erguer a festa. O antigo juiz acredita que as pessoas têm um «espírito de comunidade» e que sempre que lhes é pedida ajuda «comparecem e fazem-no com sentido de missão». Reconhece, no entanto, que a festa atualmente é feita «para as pessoas a partir dos 40 anos» porque «além dos jovens serem poucos» muitos deles não têm essa predisposição. Há, apesar disso, uma esperança para Nuno Silva: «Esses jovens, daqui a 10 ou 15 anos, já estão numa outra fase da vida, e irão sentir prazer em fazer as festas».

Apesar de assumir que há pessoas que acabam «por se cansar por fazerem vários anos seguidos a festa», Nuno Silva tem a certeza que as pessoas «estão totalmente envolvidas». Por isso mesmo, na opinião deste sambentonense «as festas da aldeia irão sempre existir, se não for por outro motivo, é pela necessidade que as pessoas têm de fazer alguma coisa em comunidade». E é aí que reside, para Nuno Silva, a importância das festas, ao «cultivar o sentido de comunidade nas pessoas» e ao possibilitar o «fortalecimento de laços». As festas podem «até reduzir» e adaptar-se mas «onde houver um bocadinho de fé e de sentido de comunidade», não vão «morrer totalmente».

Um dos motivos «de orgulho» para antigo juiz é o facto de alguns emigrantes naturais da terra, que residem nos Estados Unidos da América e Canadá, manterem «a Festa da Pascoela» nas terras onde habitam, em Harford e Montreal. Um dos projetos de Nuno é ir lá «um dia dar uma força, ver as festas e participar».

Foto: Dulce Gabriel

“Tem que haver muita disponibilidade para fazer as festas”

Margarida Gomes tem 46 anos e «há bem mais de 10» que ajuda na organização das festas na freguesia do Alqueidão da Serra. Hoje integra o Conselho Económico da Igreja que auxilia em todas as festas realizadas na localidade. No Alqueidão da Serra «são os quarentões» de cada ano que ficam encarregados de organizar a festa principal, de agosto, a Festa em Honra de Nossa Senhora do Rosário. Quando fez 40 anos, Margarida foi uma das pessoas que se disponibilizou, ano que ficou marcado por um grupo pequeno de quarentões, de «apenas quatro» pessoas, o que fez com que a festa estivesse perto de não se realizar. Com a ajuda «do Conselho Económico» foi possível manter a tradição.

Esta é, no entanto, uma situação excecional e que não reflete a «realidade» do Alqueidão da Serra, esclarece Margarida, que sente que há «um grande envolvimento por parte da população» e que «os grupos de quarentões que têm organizado» as festas têm mostrado «muita disponibilidade». Este é um processo de «grande trabalho», salienta a festeira, que explica ainda que a festa obriga a «uma organização durante todo o ano». Ainda assim, este trabalho não afasta as pessoas que querem manter «viva a tradição». As pessoas «mais antigas» estão mais ligadas à componente religiosa e são elas que «fazem os andores e as ofertas que são vendidas durante as festas». A parte «da festa mesmo, o bar, o restaurante, a quermesse e a escolha dos conjuntos musicais» fica para «as pessoas mais novas».

Para Margarida, estas festas são importantes, acima de tudo, porque são uma «tradição bonita e muito antiga» que faz «movimentar» a localidade. A «aldeia fica diferente», todos os lugares da freguesia se «juntam» e «os emigrantes regressam», lembra o membro do Conselho Económico. As pessoas aproveitam para «convidar amigos para vir a festa», o que permite «um grande convívio». Numa altura em que «se vive a vida a correr», se «não houver este tipo de atividades» não se consegue «ver os colegas e amigos», explica Margarida Gomes.
Quanto às gerações mais jovens, a festeira tem a opinião de que «gostam, participam e até têm vontade de ajudar» nas festas e por isso, acredita, esta tradição «vai manter-se por uns bons aninhos», se não for com os de «40 anos, será com os de 30 ou com os de 20 anos». Acabar com as festas seria «algo muito triste» para a localidade, conclui Margariga Gomes.

“Quando participo é a 100%”

José Henriques já foi duas vezes juiz da festa e presidente do clube dos Casais Garridos. Caracteriza-se como uma pessoa que quando assume «um compromisso ao nível da sociedade» se envolve a «100%», mesmo que isso implique «prejudicar» a sua «vida pessoal», para dar tudo o que pode «à população». Nesta localidade da freguesia do Juncal, as pessoas que fazem a festa «são nomeadas». Existe um «livro onde são registadas, todos os anos, as pessoas que são festeiras» e depois «passam seis ou sete anos até voltar a calhar à mesma pessoa». Os mais novos «que casam e ficam a residir» na localidade, são «logo nomeados passado um ano».

José Henriques calcula que quando as pessoas são convidadas para festeiras, «em 10, aceitam sempre sete ou oito». Apesar de nunca se conseguir o número total, há uma resposta positiva por parte da população. Os festeiros não chegam, no entanto, para realizar todas as tarefas a que a festa obriga, principalmente na parte do restaurante, por isso, é necessária sempre «ajuda de outras pessoas». Apesar de «não aparecerem de forma voluntária», quando convidadas «poucas dizem que não» e nos dias de festa «quase todos ajudam».

José Henriques destaca que a continuação das festas populares é imperial «para que as pessoas se juntem» sobretudo num momento em que vários serviços podem fechar. O antigo juiz lembra que a Escola Primária dos Casais Garridos só se mantém aberta porque «foram criados os tempos livres para os míudos» e o clube que «ainda está aberto», pode encerrar porque a «atual direção quer sair e não há ninguém com vontade de a substituir». Se estes espaços encerrarem, as festas passam a ser uma das poucas formas que «as pessoas têm para se encontrarem e socializarem» e de ver «os emigrantes que ainda se preocupam de vir na altura da festa». Na opinião de José Henriques «se deixar de haver festas não há sociedade».

Quanto à participação dos jovens, a opinião de José Henriques tem vindo a mudar: «Há mais participação da juventude». O antigo presidente do clube explica que a «maior parte dos jovens que são nomeados aparecem para ser festeiros», algo que acredita que vai garantir a continuação desta tradição.

[A existência das festas] É bastante relevante, uma vez que dão a conhecer vários tipos de artesanato e cultura, para não se perder na terra e na freguesia. Acho que é sempre interessante, todos os anos há uma novidade, há sempre qualquer coisa a acrescentar. Se as festas acabassem morria um pouco da aldeia, da terra. Era acabar com o pouco que temos.

Telmo Cipriano, 49 anos | Pedreiras

Eu acho que as festas são importantes porque vem muita gente de fora. As pessoas preparam-se o ano todo para a festa que vai acontecer e por isso, a gente enfeita a rua e é um convívio muito grande. Porque tirando a festa a gente não tem quase nada. Eu acho que se não acontecesse a festa, a aldeia acabaria. Nesse momento, as pessoas juntam-se e as diferenças ficam de lado. Os emigrantes quando não conseguem vir mandam sempre donativo.

Neide Ribeiro, 47 anos | Alcaria

Não costumo participar sempre, mas de vez em quando lá calha. Não se pode andar sempre nisto constantemente, não há hipótese de fazer tudo. Quando há festa, vai mais pessoal mas quando não há as pessoas convivem umas com as outras na mesma. Há 35 anos fui juiz da festa mas foi complicado porque a pessoa quer fazer e depois ter que “atender” uns e não “atender” outros torna-se difícil. Apesar de haver boa vontade de trabalhar há muita crítica. Mas isto está-se a esgotar, até a malta nova está a cansar-se porque a volta está a correr constantemente pelos mesmos.

Alcides Cardoso, 65 anos | Arrimal

É importante porque atrai muita gente à terra e é uma tradição bonita. Este ano, o meu filho foi juiz e eu também participei. Eu acho que é fácil conseguir que as pessoas participem nas festas porque gostam e os jovens não estão a perder a tradição, cada vez mais os festeiros são mais jovens, interessam-se e trabalham muito nas festas.

Fátima Vazão, 60 anos | Pedreiras

De vez em quando vou às festas porque gosto muito de ver as marchas, mas só vou um dia e chega. Acho que é muito importante porque mantêm vivas as tradições. Já fui juiza mas dá muito trabalho, às vezes, as pessoas não têm consciência e criticam sempre mas deviam era passar por lá. No entanto, considero que seja muito gratificante porque estamos a trabalhar em prol de toda a gente.

Isabel Ribeiro, 47 anos | Vale Verde

De uma maneira geral costumo participar porque gosto e é um convívio de pessoas que muitas vezes só vêm para as festas. Este é um ponto de encontro por isso desejo que não deixem morrer estas coisas, tanto em Alcaria como noutros pontos. Não gosto muito da música porque me faz muita confusão mas para o petisco e para a quermesse eu vou!

Fernanda Santos, 66 anos | Alcaria

As festas são importantes porque são uma forma de juntar a população, não só para convívio como para partilha de experiências. As pessoas reveem-se passado muitos anos, no fundo é um local de encontro, não só de gerações como de pessoas que não se vêem há muitos anos. Depois é importante não perder as tradições. Acho que deve ser para perdurar e deixar este legado às gerações vindouras.

Paula Cordeiro, 44 anos | Pedreiras

Todos os anos vou porque gosto de conviver com pessoas e ver pessoas e também porque gosto de petiscar. Mas dançar não, porque a saúde já não ajuda muito, para quem tem oitenta e tal anos é complicado…

Fernando Pereira, 81 anos | Mendiga

Costumo participar nas festas, às vezes, mas damos sempre esmola para lá e vamos quando podemos. Acho que é importante participar-se neste tipo de eventos, porque se não for assim, não se convive. Vai-se à missa, compra-se um bolinho do andor e vem-se para casa. Já fui juiza, quando era jovem e solteira e depois disso, o meu marido também já foi juiz duas vezes. Agora vai correndo a vez pelos mais novinhos, os outros começam a ficar mais velhotes, assim como eu.

Maria Conceição, 71 anos | Arrimal

Cumpro sempre o dever de assistir à missa, vou almoçar ou jantar e durante a tarde estamos sempre um bocadinho na festa. Acho importante haver estes eventos porque assim as pessoas de fora, nomeadamente, os emigrantes, vêm à festa e assim vamos falando com eles, que são pessoas com quem estamos muito tempo sem falar. As festas populares também são uma forma de trazer recordações dos tempos antigos, quando as festas tinham muito interesse porque não havia facebook, nem mensagens. O único convívio era a festa porque não havia outro entretém.

Carlos Narciso, 64 anos | Mendiga