Foto: Jéssica Moás de Sá

Mais de uma década passou desde que nasceu, no centro de Alcaria, um Quintal Comunitário. O objetivo inicial era «dar uma imagem mais arrumada à freguesia», explica Benvinda Januário, que foi timoneira deste projeto quando era ainda presidente de Junta da freguesia de Alcaria (antes da unificação das freguesias). Os «recursos são sempre poucos» e por isso era preciso pensar numa ideia que não «implicasse grandes custos». Assim nasceu o Quintal Comunitário, num terreno cedido a custo zero «por um casal amigo», que «ficou encantado da vida» por, em vez das silvas e ervas, poderem vir ali a nascer legumes e frutas para a comunidade.

Não demorou até que a população se entusiasmasse. «Depois de tudo limpo, espalhámos a notícia pela freguesia e as pessoas acharam graça», conta Benvinda Januário. Houve também os mais céticos que acreditavam que este tipo de iniciativas resultava melhor nas cidades, onde as pessoas não têm terrenos. No entanto, a adesão ao projeto, demonstrou que este era um quintal com futuro.
Embora fosse o que o regulamento previa inicialmente, ninguém paga para ter um canteiro. Os 13 canteiros estão divididos por números e é assim que se faz a distribuição pelos utilizadores.

Entre estes há algo que se destaca: a ausência de jovens. A maior parte já ultrapassou mesmo a idade de reforma. Para a ex-presidente isto está relacionado com a «falta de gente jovem em Alcaria», mas também com a falta de incentivo dos adultos. Há, no entanto, um canteiro reservado para este tipo de iniciativas e que esteve, durante muito tempo, ao encargo de uma «turma com necessidades educativas especiais da Escola Secundária de Porto de Mós». A turma deixou de ter possibilidade de visitar o quintal por «dificuldades de transporte». Hoje, esse espaço pertence ao Conselho Económico da Igreja «onde plantam flores para ornamentar a igreja».

O Portomosense falou com três utentes do Quintal Comunitário e todos concordam que a alimentação biológica traz saúde. Essa é uma das principais motivações para Sebastião Carvalho, Carla Santos e Paulo Santos, participarem neste projeto comunitário, mas para estes utilizadores, o quintal é muito mais que os legumes e as frutas que lá nascem.

A cura para os dias maus

«Para mim é fantástico levantar-me de manhã e vir para aqui regar, tomar conta das plantas e apanhar o fruto quando dá», quem o diz é Sebastião Carvalho. Não só nas palavras mas também na voz fica clara a importância que tem para o utilizador este espaço. Aos 87 anos encontra aqui «uma cura» para os dias maus. Produz um pouco de tudo e partilha. Partilhar é, aliás, a sua grande máxima. «Este ano já dei tomates, pepinos, pimentos, feijão verde e abóbora gila. Dou porque não como tudo e posso dar a pessoas que não têm», conta o produtor. Entre os utentes deste quintal há mesmo um espírito de comunidade, todos se conhecem e se ajudam. «Quando alguns vão de férias, eu rego por eles e quando não há água, rego com a minha cisterna. Aqui não seca nada», garante Sebastião Carvalho.

Carla Santos tem 46 anos e é com a mãe que divide esta experiência. «Quem começou por ter um canteiro foi a minha mãe, comecei a ajudá-la porque sou apologista do consumo de legumes e fruta o mais biológicos possível», conta. É este ideal que transmite em casa e tem já filhos habituados ao consumo de legumes. Foi «também por eles» que aderiu a este projeto. Atualmente é já presença recorrente no Mercado de Produtos Locais promovido pela Câmara Municipal de Porto de Mós mensalmente e onde pode levar parte do que produz neste quintal. «O intuito é sensibilizar as pessoas de que podemos cultivar e ter produtos sem o consumo exagerado fora de época e sem pesticidas», manifesta.

Paulo Santos nasceu no Porto e a mulher em Lisboa mas há 20 anos que estão a viver em Alcaria. Cresceram na cidade e por isso não acompanhavam «o desenvolvimento dos produtos que apareciam no supermercado» sem que conhecessem todo o processo até lá chegarem, admite Paulo Santos. Depois de chegarem a Alcaria começaram a ter um contacto «completamente diferente» com os legumes e as frutas. «O que nós aprendemos é que as coisas que são cultivadas sem stress e em pequenas quantidades têm um sabor completamente diferente e satisfazem muito mais», explica. Além desta consciência, o casal optou por ter um canteiro no Quintal Comunitário para «ajudar a divulgar os produtos regionais» e por acreditar que «esta é uma experiência que não se cinge à parte da produção e que é também um polo de desenvolvimento para a aldeia, a nível de troca de experiências e de conhecimento». Paulo Santos recomenda a experiência a todas as pessoas pela espírito de comunidade e pelo paz que transmite. «Como diz uma pessoa que costuma vir para aqui, isto substitui muitas vezes o psiquiatra ou o psicólogo», recorda.