Não foi porque a COVID-19 nos invadiu que o São Pedro, feriado municipal de Porto de Mós, a 29 de junho, não se assinalou. Numa cerimónia noturna houve música, com foco no fado, não fosse o mural instalado na Praça Arménio Marques, com a imagem de Amália Rodrigues, o cenário ideal para isso. «Porto de Mós somos todos nós», foi a frase que o presidente da Câmara de Porto de Mós, Jorge Vala, fez questão de deixar marcada no seu discurso. A comemoração, que estava a ser divulgada em direto nas redes sociais oficiais para «os quatro cantos do mundo», começou mesmo com as palavras do autarca, que lembrou que «em condições normais, Porto de Mós estaria fervilhante de vida e alegria» durante as Festas de São Pedro. «Poderíamos imaginar que uma qualquer crise económica ou os incêndios diminuíssem o ânimo dos festejos, porém nunca pensámos que seria uma crise sanitária a remeter-nos para débil condição humana», frisou Jorge Vala.

A cerimónia teve dois grandes propósitos: inaugurar o mural de Amália Rodrigues e homenagear os profissionais que viram as suas rotinas de trabalho mais afetadas com a COVID-19. Jorge Vala lembrou que o mural partiu «da iniciativa de um emigrante nascido na freguesia de São Bento, Herman Alves», e aproveitou o pretexto para relevar a importância «dos portugueses pelo mundo» que «representam um dos maiores capitais de sucesso» do país, sendo o mural e o seu mecenas exemplo disso.

Numa altura em que se fecharam as fronteiras e ligações aéreas, Jorge Vala lembrou que este seria um momento em que «os emigrantes se fariam à estrada, durante dois ou três penosos dias, para matar saudades dos que cá ficaram». «O centenário do nascimento de Amália, a quem consagramos este mural, é um pretexto digno para relembrar aqueles que nos cinco continentes conferem dimensão à identidade cultural de um dos mais antigos e estáveis estados-nação da Europa», concluiu.

Em tempos de pandemia, «é merecido recordar os que desde a primeira hora estiveram e precisamos que continuem a estar na linha da frente, são eles todos os profissionais do setor da saúde, do médico, da enfermeira à funcionária que repete o ritual da limpeza e desinfeção das instalações», frisou o presidente. Jorge Vala agradeceu também a outros profissionais importantes nesta altura, como «os bombeiros, profissionais dos lares, do apoio domiciliário, unidades de cuidados continuados, forças de segurança, serviços públicos da administração central que mantêm o país ligado», entre muitos outros. O autarca deixou uma palavra especial aos mecenas, particulares a empresas, que ajudaram nesta fase e a todos os professores que «transformaram a sua forma de trabalhar para chegar a um universo de mais de um milhão de cidadãos».
Quem também esteve presente foi o presidente da administração da Fundação Amália, Vicente Rodrigues, que destacou a notoriedade da fadista a nível mundial, ganhando esse espaço num tempo em que não «havia redes sociais e comunicação global». Vicente Rodrigues definiu Amália como uma «pessoa do povo», mas que tinha «as mais altas condecorações de França, do rei de Espanha, do Líbano, do Canadá e muitos outros países». Ainda assim, a diva do fado não deixava de ser inclusiva, sobretudo nas comunidades emigrantes: «A transmissão desta sessão para outros continentes onde estão portugueses é uma homenagem justa. Ficamos gratos ao Município de Porto de Mós», afirmou.

Seguiu-se a apresentação da música Flor em Graffiti, produzida por Herman Alves para esta inauguração, interpretada por Marta Raposo e com música de
Guilherme Valente que, não podendo estar presentes, deixaram uma mensagem em vídeo. O vídeoclip da música foi gravado entre Montreal no Canadá, onde está emigrado Herman Alves, e Porto de Mós. A noite finalizou com um concerto, que permitiu aos presentes ouvirem tocar músicos que conviveram e trabalharam com Amália e que são também grandes nomes do fado: Jorge Fernando, Custódio Castelo e Carlos Meneses. Os maiores êxitos da fadista não foram esquecidos.

Marcha saiu à rua

Este ano, por força da pandemia, não houve Festas de São Pedro e, por conseguinte, atividades importantes para os portomosenses como o desfile das marchas populares e as tasquinhas ficaram também por realizar mas mesmo assim houve festa e evocação do santo padroeiro.

Além das iniciativas promovidas pela Câmara ou realizadas com a sua parceria, na noite de São Pedro, a marcha de São Miguel resolveu descer ao centro da vila e desfilar pela Avenida de Santo António lembrando tantos outros desfiles já realizados naquela rua emblemática. Começou no lugar do costume, a Praça da República, e depois da Santo António teve passagem dupla pela Avenida Sá Carneiro, Alameda Afonso Henriques e Rossio. Fê-lo com a habitual alegria, por sua iniciativa e, segundo alguns dos seus elementos, tentando, ao mesmo tempo, representar de forma simbólica todas as restantes marchas que costumam participar no desfile. Entre aplausos e críticas foi, certamente, um dos “momentos” de um São Pedro como não há memória.