Na última reunião de Câmara, que teve lugar em São Bento, o vereador do PS, Rui Marto, pediu um esclarecimento ao presidente do Município relativamente ao fornecimento de refeições nas escolas, sobretudo no que toca «ao transporte da alimentação», já que, por protocolo previamente aprovado, alguns estabelecimentos escolares estão a receber a comida, cozinhada por associações, que depois é transportada em meios próprios para o efeito. A questão de Rui Marto insidia, em maior escala, no Centro Escolar de Pedreiras que, até aqui, tinha cozinheira – também de uma associação, no caso a Associação Desportiva Portomosense (ADP).

O presidente Jorge Vala explicou que a ADP «teve a necessidade de suprimir a cozinheira de Pedreiras e as refeições passam a ser transportadas». Jorge Vala salvaguardou que o Município vai «verificando as condições de transporte» e que a ADP é «uma entidade que dá garantias porque trabalha com o Município há muitos anos e sempre sem qualquer queixa».

Rui Marto explicou que esta interpelação advinha de um telefonema que recebeu «com um tom pouco aceitável», por parte de «um dos elementos pertencente aos órgãos sociais da ADP» que «disse, claramente, que os eleitos do PS andavam contra a associação», pelo facto de a vereadora Anabela Martins (PS) se ter manifestado contra o protocolo que instituia a prestação de serviços por parte desta associação. O vereador afirmou que «o facto de não concordar com a forma, não quer dizer que queira mal a quem quer que seja» e que a discordância da vereadora era acompanhada por si e que se devia ao facto de «[no Centro Escolar de] Porto de Mós se fazer de uma maneira e nas Pedreiras de outra, quando o caminho até às Pedreiras é muito maior». «Dizerem-me que uma comida à saída da panela é igual a depois de andar aos tombos há não sei quanto tempo… Comam o que quiserem, eu não sou capaz», indignou-se. «Nós discordamos é do transporte», acrescentou. Rui Marto pôs ainda em causa o porquê da escolha do método para Porto de Mós: «Fazemos isto em Porto de Mós porquê? Porque houve “sururu” e nas Pedreiras não havia? Qual é a divergência que existe para haver diferença no tratamento?», questionou.

A vereadora da Educação, Telma Cruz, tomou a palavra para dizer que o que ela própria, o presidente e todos os vereadores mais querem é, «de certeza, que as coisas corram bem, que o serviço às crianças seja prestado com qualidade, quente e com o máximo de higiene alimentar». «Não podemos é, antes de o serviço estar feito, [recordo que a reunião decorreu a 12 de setembro, portanto antes do início do ano letivo] estar aqui a falar sobre ele. Não vamos sofrer por antecipação, vamos ver como corre e se as coisas correrem menos bem, estamos lá para fazer parte e encontrar soluções», avançou. A finalizar, a vereadora acrescentou que «o foco, neste serviço, são os alunos» e, dirigindo-se a Rui Marto afirmou: «O senhor vereador sabe, de certeza, e conhece-me, que eu, mais do que ninguém, estou do lado dos meninos há anos, não é de agora».

Usando da palavra, Anabela Martins disse-se «totalmente apologista da mudança quando ela é para melhor», no entanto afirmou que «não faz sentido» dizerem que «nas Pedreiras não vai continuar a haver almoços cozinhados na própria escola em virtude da falta de uma cozinheira e a seguir dizerem que estão preocupados com os meninos». A vereadora reconhece que, nas escolas em que não há condições a solução tem que ser o transporte, no entanto, «nas escolas em que existem todas as condições e mais algumas, retirar o que já havia não é trabalhar bem e não é, de modo algum, mudar para melhor», sublinhou. Anabela Martins, que foi vereadora da Educação em mandatos anteriores, lembrou que antes da «construção das cantinas – entenda-se o espaço para se poder cozinhar – a Câmara recebeu várias queixas relativamente à comida que era transportada», feitas por parte de «pais, professores, funcionários e até da própria direção da qual a senhora vereadora [Telma Cruz, à época professora no Agrupamento de Escolas de Porto de Mós] fez parte, nomeadamente com o envio de fotografias da comida que era feita». «Sabendo à partida que nesta situação se corre o risco de voltar a ser pior, pergunto-me: vamos fazer experiências com os meninos? Vamos ver se desta vez corre bem? Portanto estamos a fazer deles cobaias, vamos fazer experiências. E fazemos experiências quando? Quando já tudo era aceite e louvado por todas as pessoas», terminou.

O que diz o protocolo?

No protocolo de colaboração entre o Município de Porto de Mós (primeiro outorgante), a Empresa de Inserção – Centro de Formação Desportiva Associação Desportiva Portomosense (segunda outorgante) e o Agrupamento de Escolas de Porto de Mós (terceira outorgante) a que O Portomosense teve acesso, na cláusula 1.ª do capítulo 1, respeitante ao “Fornecimento de Refeições”, pode ler-se o seguinte: «O presente protocolo tem por objeto o fornecimento das refeições aos Jardins-de-infância e Escolas do 1.º Ciclo do Ensino Básico de: Casais Garridos, Cumeira de Cima, Fonte do Oleiro, Porto de Mós e Pedreiras. Único: As refeições das crianças e alunos matriculados no centro escolar de Pedreiras e no Centro escolar de Porto de Mós são confecionadas nas instalações da respetiva escola com o uso dos recursos humanos da Segunda outorgante. Qualquer alteração ao local da confeção das refeições deve ser comunicado por escrito, com a antecedência mínima de 30 dias, pelo segundo outorgante».

O Portomosense contactou a vereadora Telma Cruz, para obter alguns esclarecimentos adicionais, que, por escrito, recorreu a esta cláusula para explicar que «nas escolas onde existe possibilidade de confecionar, por defeito [as refeições] são confecionadas nas mesmas, no entanto, permite à Associação alterar o local onde essas refeições são confecionadas, comunicando o facto antecipadamente, para assim o município apurar o valor médio por refeição para proceder ao respetivo pagamento».

As aulas já arrancaram e quisemos, portanto, saber como está a situação neste momento. «As refeições estão a ser confecionadas nas instalações do Centro Escolar de Porto de Mós e para as restantes estão a ser transportadas e a chegar às mesmas de acordo com as normas estabelecidas», afirma a vereadora que acrescenta que, nas Pedreiras, acompanhou toda a refeição no primeiro dia, em conjunto com o presidente de Junta, Rogério Vieira, tendo mesmo os autarcas almoçado na escola, «e a avaliação foi de “Muito Bom”». «Somos os primeiros a exigir a melhor qualidade e tudo o que está inerente ao bem-estar, qualidade de vida e sucesso educativo dos alunos do concelho», promete.

ADP considera «movimento muito estranho»

O Portomosense procurou ainda saber, junto da ADP, qual a razão para que a cozinheira que estava alocada às Pedreiras tivesse sido dispensada. O vice-presidente da direção, Nuno Moreira, afirmou que «não deve haver portomosenses nem crianças de primeira e de segunda» e que «nunca ninguém levantou qualquer problema quanto à qualidade do serviço prestado e da comida entregue». «Penso que isto é um movimento que se criou, que é tão estranho que foi criado antes das coisas acontecerem. Acho que isso revela a credibilidade de quem iniciou este movimento», afirma, acrescentando que «houve pessoas contra sem conhecerem sequer os termos da alteração [do protocolo] e, pior que isso, esqueceram-se que antes de haver cozinhas nas escolas novas, o serviço já era prestado a todos por entregas». Nuno Moreira finalizou dizendo que «isto é uma falsa questão» e que «talvez outras razões, que não as da defesa da alimentação das crianças, motivem esse movimento».