A COVID-19 trouxe consigo muitas alterações à realidade que conhecíamos. Uma delas foi o confinamento social a que fomos obrigados, mas terá essa atitude influenciado as nossas relações interpessoais? Estariam as pessoas preparadas para estar 24 sobre 24 horas com a família que, na maior parte das vezes, viam apenas ao final do dia?
Teresa Coelho é assistente social, especializada em Terapia Familiar e Terapia de Casal, e considera que «as pessoas foram convidadas a ficar fechadas em casa, sem terem tido tempo para se prepararem para isso». Fomos aconselhados a «abandonar rotinas, trabalho, algum lazer, e tívemos que adotar novas rotinas». Essa atitude obrigou a que se «repensassem os papéis sociais que cada um desempenha no seio familiar». «Com o confinamento, as pessoas foram obrigadas a conviver», afirma. A interpretação feita pela especialista aponta que este foi um «convite a que as pessoas olhassem para elas próprias e para dentro da “sua casa”, o próprio corpo, assim como para dentro da sua casa, espaço físico», e fez com que «repensassem muito os papéis sociais que estavam a desenvolver na família». «O que se tem verificado é que há uma relativização das emoções e um facilitar das relações: relativizam-se as emoções porque passam pouco tempo com filhos, os maridos, os pais; e isto facilitava muito as relações. Agora, ao estar 24 sobre 24 horas fechados numa casa – e se falarmos de um apartamento ainda pior –, as pessoas foram obrigadas a refletir sobre as suas práticas e sobre os seus papéis e penso que isto foi uma oportunidade excelente», explica Teresa Coelho. Na sua opinião, esta pandemia e o isolamento a que obrigou vieram mostrar que «se não tivermos a nossa casa interior arrumada não vamos conseguir ter uma relação saudável com o outro».

Tendo em conta este cenário, de acordo com a assistente social, após este período, serão mais as famílias que precisam de terapia, facto que não é diretamente proporcional à procura pelo serviço uma vez que «as pessoas não procuram muito, pelo menos na nossa zona». A isto, Teresa Coelho atribui a vergonha de assumir a necessidade de ajuda, mas também razões financeiras: «Hoje em dia, para se fazer uma consulta de Terapia Familiar, as pessoas têm que recorrer a um gabinete particular, não há um centro de saúde, uma escola ou uma autarquia com este serviço. Tudo o que existe é a pagar e a pagar muito», revela.

Na opinião da terapeuta, «o nosso sistema está a falhar», e exemplifica: «Com a COVID-19, ouvimos constantemente que a economia tem que começar a mexer, mas não tenho ideia de ter visto a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social vir à televisão, junto com a ministra da Saúde, com medidas específicas para as famílias. Se eu não estou bem emocionalmente, se não estou bem na minha família, como posso estar preparada para ir para uma empresa, para ser competitiva, pontual e, depois, poder chegar a casa e desempenhar o meu papel como deve ser?», questiona. Teresa Coelho considera que esta problemática deve ser repensada, «quer ao nível das escolas, quer dos centros de saúde (os médicos de família são excelentes interlocutores)», e que se deve trabalhar «mais no sentido preventivo e não no sentido curativo», termina.