Numa sociedade cada vez mais consumista, é frequente constatarmos que a avaria de uma máquina é, em muitos casos, sinónimo de esta vir a ser depositada no lixo. Embora nos seja dito que é importante termos uma consciência ambiental e reutilizar, a verdade é que nem sempre essa questão se torna viável, sobretudo se tivermos em consideração o valor de determinadas reparações que comparando com o custo de um novo aparelho acabam por não compensar monetariamente. Assim, feitas as contas, muitos optam por adquirir equipamento novo ao invés de mandar reparar o que está avariado, interrompendo a chamada economia circular. Por seu turno, quem procura ter postura diferente nem sempre consegue encontrar quem repare. Por isso, fomos falar com dois profissionais que ainda hoje se dedicam a essa atividade para tentar perceber se ainda são muitos os que recorrem aos seus serviços, naquela que é uma profissão que tende a caminhar para a extinção.

“Faço das tripas coração para que as coisas fiquem a funcionar”

«Quando não tenho conhecimento faço de tudo para o ganhar. Esforço-me para que tudo aconteça até eu aprender alguma coisa. Cada vez que mexemos nalguma coisa há sempre uma novidade». Aos 75 anos, Sérgio Manuel ainda continua a ter ânsia de aprender. Toda a vida foi eletricista de automóveis e, chegou inclusive, a fazer alguns serviços domésticos mas a vida ativa e agitada que sempre levou não se manteve nos primeiros tempos na reforma. Sem se conformar, decidiu arregaçar as mangas e ir à procura de outra ocupação: «Eu não consigo estar parado, estou sempre a inventar e então tenho que me dedicar a qualquer coisa. Comecei a pensar que andar de café em café não era vida para mim e senti que tinha que me entreter com qualquer coisa. Fui trabalhar para o senhor Artur Ramos e foi lá que comecei a reparar máquinas de costura», diz. A experiência que aí adquiriu foi o empurrão que precisava para que há oito anos abrisse o seu próprio estabelecimento e se dedicasse a tempo inteiro às reparações.

É numa pequena loja no centro da vila de Porto de Mós, rodeado de todo o tipo de maquinaria, que podemos encontrar “O Reparador” que é como quem diz, o Sérgio Manuel e que se dedica a consertar de tudo um pouco, sejam máquinas de costura, máquinas de café, ferros de engomar, secadores ou torradeiras. Embora coloque muita seriedade e empenho em tudo o que faz não considera que essa seja uma profissão, prefere antes encará-la como um hobbie. «Eu não estou aqui para viver disto mas sim para estar entretido e para que as pessoas vejam que faço tudo o que é possível para as agradar», sublinha.

Apesar da entrega e do afinco para que as coisas fiquem a funcionar «na medida do possível», o que, por vezes, o obriga a fazer das «tripas coração» Sérgio Manuel reconhece que nem sempre é bem sucedido. «Muitas vezes sacrificamo-nos e depois as coisas não correm bem, como quando as coisas têm que ir para o lixo», desabafa. Nos casos em que uma máquina não tem arranjo, e apesar do tempo que «perdeu» à sua volta, garante que opta por não pedir dinheiro mas, ainda assim, há pessoas que decidem dar. Por outro lado, o facto de ver nesta atividade uma forma de passar o tempo faz com que não exija o valor real do serviço aos clientes, mesmo que, no fim, saia prejudicado. «Às vezes perde-se duas horas à procura da avaria. No caso de ser um equipamento que custa 30 ou 40 euros, se nós fossemos levar à pessoa exatamente o valor do tempo que dispensámos, dizia que mais valia ter comprado outro. Isso é que dói um bocadinho. O tempo que eu perco com determinado objeto não compensa o dinheiro que eu levo, mas pronto, sempre foi alguém que veio e, assim, eu consegui atingir o meu objetivo: estar entretido», frisa.

“Estima” pelas máquinas levam pessoas a escolher por consertar

Conhecido por “Fusível”, António Faria, é reparador eletrotécnico e já conta com uma experiência de mais de 30 anos no ramo. Começou a trabalhar aos 14 anos, interessou-se pela atividade e, mais tarde, tirou uma «formação por correspondência». Trabalhou durante alguns anos em Leiria, onde aprendeu com três «grandes mestres» e mesmo no período em que esteve na tropa, aos fins de semana vinha a Porto de Mós arranjar televisões. Hoje em dia é funcionário da Electro Nuno, uma empresa de comércio de eletrodomésticos, onde repara «praticamente tudo» o que seja eletrodomésticos, desde LCD, antenas parabólicas, máquinas de lavar roupa, máquinas de lavar loiça até frigoríficos.
Aos 59 anos, a sua experiência fá-lo afirmar que continua a existir muita gente a recorrer aos serviços de reparação, o que, acredita, se deve à estima que, por vezes, têm pelas máquinas. «Ainda há pessoas que gostam de levar as coisas a reparar. Pedem-me a opinião e o orçamento. Há quem não aceite mas há outras que ainda querem porque se afeiçoam aos equipamentos», admite.

“Há quem pense que isto é muito fácil mas depois chateiam-se e desistem”

Não serão precisos mais do que os dedos de uma mão para contar as pessoas que ainda continuam a ter o conhecimento necessário para consertar o quer que seja no concelho. O panorama atual diz-nos que, muito provavelmente, esta será mais uma profissões que tenderá a caminhar para a extinção, mas porque é que não há pessoas que se queiram dedicar a essa função? Sérgio Manuel responde: «As pessoas hoje já não têm paciência. Quando comecei a trabalhar nós tínhamos que fazer tudo. Foi sempre um trabalho que fui tendo gosto e aperfeiçoando». Já António Faria, acredita que o problema reside na ilusão que as pessoas têm sobre essa atividade: «Alguns até querem aprender só que pensam que isto é muito fácil mas depois chateiam-se e desistem».