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“Retomadas escavações arqueológicas no Campo Militar de São Jorge”

23 Agosto 2021
Jéssica Silva

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Jéssica Silva

23 Ago, 2021

Começaram em 2019, sofreram um interregno de um ano (por causa da pandemia), mas desde o final do mês passado que foram retomadas as escavações arqueológicas no campo militar de São Jorge, junto ao Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA), após uma ação de limpeza que decorreu no dia 19 de julho. Desde essa altura que os trabalhos têm incidido numa «área grande» que foi escavada por Afonso do Paço em 1958 e cujo o objetivo é, agora, poder fazer um «registo diferente». «Queríamos fazer alguns estudos com metodologias mais modernas e com datações, que hoje em dia se podem fazer mas que na altura não se faziam», explica Maria Antónia Amaral, arqueóloga e coordenadora dos trabalhos de escavação.

Os trabalhos têm sido realizados nuns terrenos em frente à Capela de São Jorge que «nunca tinham sido intervencionados» e onde já foram descobertos alguns vestígios arqueológicos que «tudo leva a crer» sejam da época da Batalha de Aljubarrota. «Nós temos encontrado, sobretudo, aquilo a que chamamos de “estruturas em negativo”, ou seja, fossos e covas que, eventualmente, levaram uma estrutura de madeira em cima e que deixaram este vestígio no solo natural», revela. Os sedimentos foram datados «por radiocarbono» e depois de ter conhecido os resultados obtidos através dessas datações, a arqueóloga não teve dúvidas: «As datações apontam para entre 1385 até 1400, o que nos dá uma certeza absoluta de que aqueles enchimentos foram feitos a seguir à Batalha». «Quando os terrenos ficam à mercê dos ventos, das poeiras, dos depósitos da chuva, as estruturas vão sendo cobertas naturalmente. Isso é um processo que demora anos mas as datações dão-nos exatamente esse período», acrescenta.

Sob a orientação da arqueóloga Maria Antónia Amaral, dois arqueólogos de campo (Joana Pereira e Sérgio Pereira) e dois a três profissionais de «mão de obra indiferenciada» têm participado, diariamente, nos trabalhos de escavação, que a coordenadora não se coíbe de elogiar: «São muito trabalhadores e têm dado um andamento ótimo aos trabalhos. Não temos andado com muita gente mas temos andado depressa, o que é curioso». Noutros tempos, esta tarefa teria contado com a participação de alguns estudantes mas, desta vez, por causa da situação pandémica optou-se por ter «menos gente e gente mais talhada neste trabalho». Um trabalho que a arqueóloga reconhece ser «duro e puxado» principalmente por ser sinónimo de «muitas horas ao ar livre e ao sol».

“A não informação também é informação”

A intervenção arqueológica não abrange toda a zona escavada em 1958 por Afonso do Paço que tem «entre 1 500 a 2 000 metros quadrados», mas ainda assim, a arqueóloga reconhece que é uma «grande área de intervenção» onde, neste momento, estão a ser feitas seis sondagens, quatro das quais com 10×10 e duas com 10×5, através das quais se testam variadas zonas que podem ou não revelar achados arqueológicos. Maria Antónia Amaral esclarece que mesmo nos casos em que a procura se revela infrutífera, nenhum trabalho feito é considerado ser em vão. «A não informação também é informação. Se nós testarmos zonas que não estão a dar nada arqueologicamente isso tem um significado», refere, dando um exemplo concreto que cimenta a sua afirmação: «Nós estamos à procura dos vestígios da posição do exército português e as zonas que não nos deem nada, dão-nos a informação que o exército não esteve ali».

Por outro lado, João Mareco, diretor do CIBA, acredita que um dos factos «curiosos» da arqueologia é que, muitas das vezes, se está em busca de determinado achado e acaba-se por encontrar algo, totalmente diferente do que que se estava à procura. «Em termos de extrato arqueológico estamos a falar já daquilo que se pensa serem coisas do período pré-histórico», revela. «Mesmo que não encontremos coisas da Batalha há sempre informação que conseguimos acrescentar a este local», acrescenta a arqueóloga. Segundo os estudos que foram sendo efetuados ao longo do tempo, a coordenadora dos trabalhos de escavação acredita que onde hoje existe um planalto esse foi em «tempos muito remotos» uma zona de circulação. «Há aqui uma espécie de um planalto, de uma cumieira, que era fácil transitar, porque está alta. As encostas seriam arvoredo mas a parte superior, eventualmente, não. E temos aqui prova que foi circulada e houve pessoas que passaram por aqui desde o paleolítico inferior, médio e superior e neolítico», adianta.

Esta é a última fase dos trabalhos de arqueologia previstos para o Projeto Plurianual de Trabalhos arqueológicos, que se inserem no Programa Valorizar e que têm estado a ser executados por uma empresa da região. Ao que tudo aponta, os trabalhos de campo terminarão em finais de setembro, a que se seguirá o trabalho de laboratório, como explica Maria Antónia Amaral: «Primeiro fazem-se as recolhas e depois, assim que termine a campanha, começamos logo a tratar dos relatórios e nessa altura escolhemos as amostras que vão para datação e que farão depois parte da conclusão do relatório». Um relatório que, normalmente, demora entre um a dois meses, mas que, ressalva, pode demorar até um ano. «A previsão é que tudo esteja pronto até final do ano», antevê.

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