Todos nós já tivemos esta experiência: «Estamos na rua, num dia muito ensolarado e de repente entramos dentro de casa, o que é que acontece? Tudo parece escuro». Se calhar até já refletimos sobre o motivo que leva a que isto aconteça, mas Rúben Pastilha, cientista da visão, não se ficará pela reflexão. «As mudanças de iluminação e a forma como o sistema visual se adapta a elas» é o foco de uma investigação que está a desenvolver, no âmbito da sua tese de Doutoramento no Institute of Neuroscience da Universidade de Newcastle, no Reino Unido. O jovem de 27 anos, natural de Mira de Aire, explica que o «sistema visual demora algum tempo a adaptar-se a novas condições de luminosidade» e essa adaptação é o ponto de partida do estudo.

Sempre com a perceção visual como mote, o estudo pretende tirar mais conclusões. «Nós sabemos que ao longo do dia obtemos diferentes cores da luz na rua, devido à deslocação do sol, por isso, sabemos que ao final do dia as coisas parecem mais vermelhas ou, pelo menos, o céu está mais avermelhado, então porque é não sentimos essas mudanças no momento em que estão a decorrer?», questiona o cientista. Rúben Pastilha aponta uma possibilidade: «O que assumimos é que isso acontece porque as mudanças de luz são bastante lentas e por isso estão abaixo da nossa sensibilidade, tal como quando uma nuvem se move para a frente do sol, dá-se uma mudança de brilho suficientemente rápida para nós repararmos, mas não uma mudança na cor», evidencia.

Na prática, que contributo terá este estudo para a ciência? «Se soubermos como é que o nosso olho se adapta a diferentes mudanças, podemos, por exemplo, controlar a adaptação de um cirurgião quando está em ambiente de cirurgia a olhar para o corpo de um paciente. Quando entra na sala, tem que se adaptar à nova iluminação e talvez haja interesse em ter um maior controlo dessa adaptação», esclarece. Este controlo não seria feito com luz natural, mas com «iluminação dinâmica artificial», com tecnologia LED que «permite controlar as componentes espectrais da luz». Além disso, a investigação pretende possibilitar a inclusão de «cores que vão permitir distinguir melhor diferentes cores no corpo do paciente», um método de discriminação de cores que fez parte de projetos anteriores de Rúben Pastilha, na Universidade do Minho e que se aplicava sobretudo a pessoas com problemas de daltonismo. O cientista desenvolveu mesmo «lentes coloridas para daltónicos», no Laboratório da Cor da universidade, a propósito da sua tese de Mestrado, orientada por João Linhares.

Embora se fale de daltonismo de uma forma genérica, existem diferentes graus. Na sua tese de Mestrado, Rúben Pastilha centrou-se acima de tudo nos que sofrem de uma patologia chamada de dicromacia, que é detetada «quando a pessoa tem apenas dois sensores de luz, em vez de três que é o normal» e por isso «vê o mundo apenas nessas duas tonalidades, normalmente a azul e amarelo». O cientista dá um exemplo de como isto é limitador: «Conheci o caso de um médico que não conseguia identificar as zonas de vermelhidão na pele dos pacientes, porque para ele, essas duas cores dos espectros eram iguais». As lentes criadas por Rúben Pastilha permitiam «em teoria» distinguir, por exemplo, a pele com aspeto normal, da que tinha sinais de vermelhidão.

“Eu nunca pensei que podia ser cientista”

Rúben Pastilha já estava na Universidade, a começar uma licenciatura quando percebeu que tinha «muitas perguntas» que na infância o «perseguiram», mas para as quais «não tinha resposta». Por isso, não foi desde pequeno que soube que queria ser cientista, até porque achava que ser cientista «era algo impossível»: «Eu achava que os cientistas só existiam nos filmes, era um mito para mim». Hoje, o seu objetivo é que «qualquer rapazinho ou rapariga pudesse ter acesso a esse sonho desde pequeno, que percebesse que pode ser uma realidade».

Por não ser uma ambição desde novo, Rúben Pastilha acabou por escolher o curso de Optometria e Ciências da Visão apenas «pelas saídas profissionais»: «Eu entrei para a universidade em 2012, ainda era época de crise, por isso preocupei-me em escolher um curso onde existisse emprego». Depois de “pôr mãos à obra”, o tema trouxe-lhe também «uma satisfação pessoal». Em concreto, nas ciências da visão, o que mais o fascina é a perceção, tendo em conta que nada «do que vemos é real, é sempre uma interpretação do nosso cérebro». «Na realidade, aquelas cores não estão ali e fascina-me como é que a nossa realidade é tão subjetiva», salienta.

«Sensibilizar para a ciência» é um dos seus grandes objetivos, nomeadamente para a área da visão que, segundo o jovem cientista, é muitas vezes «esquecida». «Hoje em dia estamos a ter problemas cada vez maiores, sobretudo com o aumento da miopia», lembra, salientado que atualmente «quase toda a gente usa óculos». Nos últimos anos, diz, «tem-se obtido alguma evidência científica que esclarece quais são os fatores que estimulam o desenvolvimento da miopia», entre eles, «as horas que passamos a observar objetos muito próximos», como o telemóvel e outro que tem que ver com «a exposição à intensidade luminosa». O mirense quer que estes factos façam parte do dia-a-dia das pessoas, para que todos tenham conhecimento de como podem prevenir certas patologias.