A presidente da Assembleia Municipal (AM), surpreendida com as acusações do deputado, Rui Neves, a propósito do caso “plágio”, traçou o historial do processo procurando justificar os passos dados. Antes, lamentou que «um órgão extremamente importante tenha de estar a passar noites a falar de coisas de que não teve culpa» e disse que a AM «é uma instituição muito séria e às vezes brincamos [com ela]. Umas vezes queremos ficar, outras não, consoante as situações», numa clara alusão ao facto de Rui Neves ter anunciado a renúncia ao lugar mas não a ter formalizado, o que tornou o anúncio sem qualquer efeito prático.

De acordo com a autarca só tomou contacto com o caso em janeiro de 2018, através de um e-mail do investigador portomosense, Kevin Soares, dando conta de que ao fazer uma pesquisa sobre vias que atravessavam o concelho se deparara com a «proposta de classificação de um conjunto de pontes, com respetiva fundamentação teórica, assinada por um deputado municipal», texto que lhe parecera «estranhamente familiar» e por isso o comparara com a dissertação de mestrado de Luís Serrão Gil, confirmando como justo «o desagrado» que, um ano antes, o próprio Serrão Gil lhe havia transmitido afirmando-se «lesado por não lhe ser atribuída a autoria do mesmo», e referindo que tinha dado conhecimento do seu descontentamento «ao anterior executivo camarário, bem como ao presidente da Assembleia Municipal». Na missiva, Kevin Soares dizia ser «tempo de Porto de Mós e a sua Assembleia Municipal reconhecerem a qualidade da dissertação em questão e darem a autoria do texto a quem de direito. Com isto, repor a honra dessa Assembleia Municipal e devolver ao autor lesado o estímulo para que não desista de estudar o concelho portomosense» e, ao mesmo tempo «evitar outro tipo de processos de natureza judicial», tendo, na altura, anexado uma tabela em que comparava o conteúdo da moção aprovada com o da tese de mestrado, identificando as partes supostamente «de cópia integral» e as de cópia «indireta». Face a isto, Clarisse Louro explicou que decidiu convidar Serrão Gil a participar na sessão em Serro Ventoso para expor o caso «porque ele é que era o lesado» e que «nunca ninguém disse que o Dr. Rui Neves fazia qualquer coisa que fosse. Isto são delírios do senhor deputado», afirmou irritada.

A presidente confessou ter ficado «embaraçada» com o caso e por isso resolveu trazê-lo à AM depois de ter confirmado que Serrão Gil já, por diversas vezes, dera conta do assunto aos então vice-presidente e presidente da Câmara e que este último, em 2015, enviara a mesma correspondência ao presidente da Assembleia Municipal [Rui Neves] «para analisar o assunto», e que este, «porque quis ou não quis, não o fez, ficando o assunto na gaveta».

«Nunca esta Assembleia disse que era ou deixava de ser plágio, nem acusámos quem quer que fosse, porque o único que o podia fazer é o Ministério Público», disse, afirmando que por haver uma reclamação formal de Luís Serrão Gil que se queixava de numa moção aprovada por anterior AM, constarem «passagens da sua dissertação de mestrado sem a devida referência bibliográfica» e isso poder configurar «factos de relevância criminal» decidiu remeter o caso para o Ministério Público, órgão a que diz ter enviado, apenas, a versão do queixoso, atas da AM, bem como cópia da correspondência entre aquele e responsáveis autárquicos.

Clarisse Louro considerou ter cumprido «escrupulosamente» a sua obrigação porque «fazer a participação era a única maneira que tinha de dar dignidade a esta Assembleia e expor a verdade» e frisou que «Rui Neves nunca foi acusado, para estar agora com esta situação». A terminar, passou a bola aos deputados municipais: a decisão de arquivamento por parte do Ministério Público é passível de recurso, mas isso só será feito se assim o entenderem. Da sua parte, dá o caso como encerrado «porque a AM tem muitos assuntos de interesse para o concelho para discutir em vez de estar aqui com uma situação que diz respeito ao autor da obra».

Perante tudo isto, o deputado do movimento AJSIM, Mário Cruz, expressou a sua convicção de que «a reboque ou à laia do interesse pessoal» do queixoso, «a AM foi instrumentalizada» por este, com consequências nefastas para a AM e seus elementos.

Já António Pires, do PSD, lamentou que por uma questão processual «não se tenha conseguido apurar a verdade», afirmando que, assim, se pode dizer que «a montanha pariu um rato».