São simples, os gestos, mas estiveram cá, durante toda a nossa vida, na sombra

by | 17 Nov 2020

São simples, os gestos. Vão desde a chapada nas costas ao amigo que encontramos no supermercado, ao carro estacionado em segunda fila só para dizer “olá” à vizinha que passava. São simples, os gestos. São o beijo na testa à nossa avó ou a boleia a alguém que sabemos precisar. São simples, os gestos. É o preparar uma refeição com todo o empenho a alguém que amamos e de quem temos saudades ou o mostrar, pela primeira vez, o bebé que veio ao mundo. São simples, os gestos. São o abraço longo, que nos protege. A cerveja no café da rua. É festejar as bodas de ouro dos pais e o aniversário redondo. O festejo no estádio com um desconhecido, a quem estamos ligados pela mesma paixão. São simples, os gestos, mas fazem tanta falta.

São simples, os gestos, mas a falta que nos fazem tira-nos o ar. Rouba-nos a paz. Faz-nos conjugar o verbo viver sempre no condicional. Faremos e seremos se a pandemia deixar. Estamos cá, mas não estamos inteiros. Vivemos numa bolha que teima em não rebentar. São simples, os gestos, mas são precisamente estes gestos simples que nos dão segurança. São estes gestos que nos fazem sentir que pertencemos a algo. Modelam-nos todos os dias, porque nos acrescentam sempre qualquer coisa.

São simples, os gestos, mas estiveram cá, durante toda a nossa vida, na sombra. Por serem dados-adquiridos nem sempre os pensamos de uma forma clarividente. Estavam lá, sem percebermos a felicidade que nos traziam. É cada vez mais certo para mim que só sabemos medir a felicidade, depois de a termos vivido. É por isso que aqui quero falar destes gestos. Quero dar-lhes o reconhecimento que merecem e se fizer com que, uma pessoa que esteja a ler este texto, valorize um gesto simples, para mim, o meu gesto está feito.

Pode parecer que agora todos os nossos gestos simples estão limitados, mas não é assim. As nossas bocas podem estar tapadas pelas máscaras, mas os nossos olhos ainda conseguem ver. O carinho pode não ser físico, mas as palavras podem continuar a ser ditas. O teto, a que chamamos casa, é o nosso reduto mais apaziguador. Nem todos o têm. Continuem a olhar os vossos filhos e netos e a perceber que, à vossa frente, têm o que de melhor existe: o amor incondicional. Valorizem a música que o rádio do carro toca e a catarse que vos provoca. Riam-se desalmadamente da piada que escutam ou leem. Não deixem escapar os gestos de quem vos cobre com uma manta no sofá da sala. São simples, os gestos, e ainda aqui estão.

Luís Filipe Parrado, no seu livro Entre a Carne e os Ossos diz: «Estar vivo é abrir uma gaveta na cozinha, tirar uma faca de cabo preto, descascar uma laranja. Viver é outra coisa: deixas a gaveta fechada e arrancas tudo com unhas e dentes, o sabor amargo da casca, de tão doce, não o esqueces». Os gestos são simples, mas todos eles são a consciência de estarmos vivos. Olhem para a fruteira e descasquem a laranja com a boca. Não tenham medo: os gestos simples são bonitos e ainda estão cá.