Moderadamente preocupados. Em duas palavras se resume o estado de espírito dos presidentes de junta quanto à situação de seca que Porto de Mós, à semelhança do resto do país, atravessa. Os autarcas acreditam que «as atuais reservas são suficientes» e que «a água não vai faltar nas torneiras», mas avisam que todos têm de colaborar reduzindo consumos e aproveitando o melhor possível o precioso líquido.

Ouvidos pelo nosso jornal são vários os que admitem ainda não encontrar sinais visíveis de seca nos respetivos territórios mas nenhum nega a sua existência.

Arrimal/Mendiga, Serro Ventoso e São Bento

«Algumas pessoas queixam-se que já não têm muita água nos poços mas tirando isso, a seca é algo que ainda não é muito visível» diz o presidente da União de Freguesias de Arrimal e Mendiga, Francisco Baptista. O autarca afirma que nos Telhados de Água, na Mendiga, há água suficiente para um período de tempo razoável e nas lagoas de Arrimal (e respetivos poços) o cenário é idêntico. Pela sua parte nada tem a opor que as pessoas continuem a recorrer às lagoas para irem buscar água para regar ou dar aos animais, «até porque se as coisas existem é para serem utilizadas pela população», apenas pede que o façam de forma moderada «para que chegue para todos».

Quanto a medidas a adotar, explica que «os espaços ajardinados não são muito grandes» pelo que a Junta irá continuar a regá-los a menos que no futuro se veja obrigada a interromper. «No caso do fontanário da Mendiga não estamos a equacionar reduzir a quantidade de água, a menos que comece a faltar», assegura.

Por Serro Ventoso, o cenário é, sensivelmente, o mesmo. «Vejo as pessoas a irem à “barragem” buscar garrafões de água mas não muito mais que isso. É claro que não há muita para os animais mas os donos têm pequenos depósitos que vão encher aos furos a Porto de Mós ou ao reservatório à entrada de São Bento», diz Carlos Cordeiro, o presidente da Junta, reforçando que, para já, há poucos sinais visíveis de seca. «Veem-se os terrenos todos secos mas noutros anos, pela mesma altura, também já estavam assim», realça, afirmando que «ainda não estamos em alerta vermelho». De acordo com o autarca, a “barragem”, que consiste num sistema de aproveitamento da água das chuvas para consumo humano muito semelhante ao da Mendiga, conta, nos seus dois reservatórios, com «água suficiente para, pelo menos, dois verões». Entretanto, no Chão das Pias, está a ser colocado um depósito para ser usado pelos agricultores. «Está a ser feito não por causa da seca, mas por ser uma necessidade», frisa.

Luís Ferraria, de São Bento, também não encontra grandes sinais de seca na sua freguesia. «Seca há todos os anos. A água para os animais escasseia sempre mas não tenho notado que esteja pior que o costume», diz. Por seu turno, as cisternas apresentam menos água mas como as pessoas estão habituadas a poupá-la por ter sido sempre um bem escasso», Luís Ferraria acredita que água potável é coisa que não faltará, até porque, «finalmente, desde o ano passado, a freguesia passou a estar toda coberta pelo sistema municipal pese embora ainda haja quem resista a fazer a respetiva ligação».

Mira de Aire, Alvados/Alcaria, Alqueidão da Serra e Porto de Mós

Alcides Oliveira, presidente da Junta de Mira de Aire, é outro dos autarcas que não apontam, por enquanto, sinais notórios de seca nas respetivas freguesias. «Por vezes surgem “reclamações” de pessoas que vivem nas zonas mais altas, nomeadamente em prédios com vários andares, de que há alguma dificuldade em que a água lá chegue mas tirando isso não tenho registo de preocupações excessivas», diz.

Consciente de que «o desperdício de água a todos afeta e ninguém se pode pôr de lado», procura fazer a sua parte sensibilizando os fregueses e chamando a atenção quando se depara com situações de abuso. Por enquanto, a rega dos espaços ajardinados por parte da Junta está a ser feita nos moldes habituais mas se a situação piorar, admite passar a fazê-lo em metade do tempo. Deixar de regar é algo com o qual não concorda e que tentará evitar ao máximo, porque defende que «se deixarmos morrer um jardim, estamos a desperdiçar o investimento ali realizado e ficará mais cara a recuperação». «Se alguma vez tivermos de ir por aí, então, que a decisão seja para todo o concelho porque não faz sentido numa freguesia termos tudo verdinho e ao lado estar tudo seco», reforça.

Sandra Martins, da União de Freguesias de Alvados e Alcaria, concorda e acrescenta que do seu ponto de vista a solução não passa por deixar morrer os espaços ajardinados, mas antes «regá-los menos vezes e menos tempo» e é precisamente isso que está a fazer tanto em Alvados como na Barrenta. «É preferível e sai mais barato reduzir o tempo e a duração das regas que deixar secar um jardim», defende.

Quanto aos sinais da seca, estes «são bem visíveis na Lagoa de Alvados e nos poços contíguos» em que a água se apresenta a um nível «muito mais baixo que o habitual». Em Alcaria, a água que serve os fontanários vem da Fórnea e se o sistema já apresenta falhas por se tratar de uma canalização com mais de 70 anos, com a seca a situação agrava-se e a água tende a chegar com maior dificuldade aos pontos altos.

No Alqueidão da Serra «basta olhar para os terrenos e logo ali se encontram sinais claros da seca que o concelho e o país atravessam», assegura o presidente da Junta, Filipe Batista. «A nível da Junta nunca conseguimos fazer uma grande poupança porque os consumos já são muito reduzidos. Agora pela festa, reguei um bocadinho o pequeno jardim da Carreirancha, para não secar todo e ficar com mau aspeto mas vou passar a regar menos. Fora isso, não há muito mais onde possamos cortar. Resta-nos sensibilizar a população porque é um esforço que tem de ser de todos», acrescenta.

Na freguesia da sede de concelho, Manuel Barroso, o presidente da Junta, mostra-se bastante preocupado por constatar que «os ribeiros que dantes levavam água, agora estão secos». A preocupação principal vai para o Rio Lena. Além de não haver quase água, o furo do Olho de Água, na Ribeira de Cima, trabalha mais tempo, o que leva os regantes a queixarem-se de que não têm com que regar. «Tenho levado as suas preocupações a quem de direito [a Câmara] mas dizem-me que primeiro estão as pessoas e só depois as regas», refere Manuel Barroso, que diz perceber os argumentos de ambas as partes mas, neste caso, não ter como ajudar.

O autarca apela aos seus fregueses para que, sempre que possível, reduzam na frequência e na quantidade de água consumida e lamenta situações em que «há água a ser retirada de forma ilegal e que depois é usada para regas durante a noite». «Entre ver uma árvore a secar ou faltar água na casa das pessoas», Manuel Barroso, diz que para si a opção é clara, «primeiro as pessoas». No entanto, como a situação ainda não é muito grave, continua a regar as árvores do parque da Valicova.

Calvaria de Cima, Juncal e Pedreiras

Pela Calvaria de Cima, os sinais de seca podem não ser muitos mas o presidente da Junta, Luís Silva, tem reparado que há mais gente «a recorrer a poços com nascentes abundantes para irem buscar água para regar as hortas», o que no seu entender, «é uma boa solução».

É da sua freguesia que sai grande parte da água consumida pelos portomosenses, e se esta ainda chega para as necessidades, o autarca não tem dúvidas de que o cenário, devido às alterações climáticas, poderá mudar em poucos anos, por isso, todos os pequenos gestos que ajudem a atrasar este processo contam. No imediato, e perante a atual situação de seca, o esforço da Junta passa por, nos jardins, tanto em São Jorge como na Calvaria, passar de «duas para uma rega diária e apenas por dois minutos».

«Para já, a nossa região ainda é privilegiada mas já começamos a pagar a fatura do preço dos bens alimentares produzidos em zonas do país onde a água começa a escassear», realça o autarca.

Reduzir os tempos de rega é uma medida que está a ser tomada também pela Junta do Juncal e Artur Louceiro, o presidente, admite que se a situação evoluir desfavoravelmente, outras medidas venham a ser tomadas. «É chato vermos um jardim que não seja verde mas se tiver que ser, valores mais altos se levantam», sublinha.

Espaços agrícolas com as árvores e as culturas verdejantes é coisa que parece algo estranha num cenário de seca severa ou mesmo extrema, mas no Juncal ainda são frequentes. A razão, explica Artur Louceiro, é simples: muita gente, especialmente «quem tem grandes áreas de pomar, optou por fazer furos e daí as propriedades não apresentarem aquele aspeto seco que é característico». Já os pequenos proprietários optam por ir buscar água a uma antiga barreira que está a ser “explorada” pelos bombeiros locais e «um euro (o que não é nada) basta para levarem para casa um depósito de 1 000 litros de água». O atual nível, muito abaixo do que é normal, dessa barreira é, para o autarca, talvez o sinal mais visível de que a seca também não poupou a freguesia.

Nas Pedreiras, e comparando com anos anteriores, Pedro Pragosa, o presidente da Junta, não sente, para já, que haja falta de água. A esse nível mostra-se relativamente descansado acreditando que «a nascente de Brenhós tem quantidade suficiente para as necessidades da freguesia». «Era um espaço que estava algo descuidado mas que agora estamos a limpar e é nossa intenção construir ali um tanque para reter a água de forma a que possa servir a todos», explica. Caso haja necessidade (e se após a devida avaliação técnica isso se revelar exequível), o autarca admite que a ação do furo existente junto ao moinho das Pedreiras, e que serve a parte alta da freguesia, possa vir a ser incrementada num futuro próximo.

Fotos | Isidro Bento, Catarina Correia Martins e Rita Santos Batista