Em Entrevista… José Galamba de Oliveira

25 Nov 2020

Como descreve o estado do setor dos seguros, atualmente, em Portugal?
O setor segurador tem-se caracterizado, fundamentalmente, pela sua capacidade de resiliência, perante cenários críticos. Houve um importante impacto desta pandemia a nível setorial – um efeito incontornável, tendo em conta que a atividade seguradora está diretamente ligada à evolução do PIB. O setor soube, contudo, demonstrar capacidade de resposta, de forma célere e com confiança, numa situação de elevado risco. Muito antes do decreto-lei que veio prever as moratórias, o setor começou logo a dar respostas à medida das necessidades das pessoas, revendo apólices, reduzindo ou fracionando prémios e conseguindo, desde a primeira hora, um conjunto de iniciativas junto de famílias e empresas, no sentido de responder a esta situação excecional.

É possível que, por causa da pandemia, se assista a uma diminuição do valor dos seguros dos carros?
Num primeiro momento, com o confinamento, houve menos carros a circular nas estradas, e por isso, uma menor ocorrência de sinistros. Depois, houve um aumento dos custos, pois os carros estiveram mais tempo parados para serem consertados. Na fase seguinte, quando as pessoas saíram de casa, registou-se um aumento de veículos em circulação que resultou num aumento do número de sinistros.
Tendo em conta estes fatores, cada empresa de seguros, em função da sua própria realidade, está a seguir a recomendação da ASF – Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, que determinou que “as empresas de seguros, nas decisões em matéria de ajustamento das condições contratuais dos produtos, devem respeitar as regras técnicas aplicáveis e devem atender à situação específica do contrato, do conjunto de contratos e da empresa, bem como aos respetivos modelos de tarifação, de forma a garantir a suficiência e sustentabilidade dos prémios, visando o equilíbrio técnico da modalidade de seguro em causa”. E, por isso, vamos assistindo à tomada de posições diversas das empresas de seguros sobre esta temática e algumas vão nesse sentido.

Que consequências positivas ou negativas poderão advir dessa decisão?
O que é expectável, de uma forma geral, é uma redução do volume de negócios das empresas de seguros, em linha, aliás, com a queda que se verifica na economia em geral.
Ao nível dos clientes das seguradoras, estes devem aproveitar esta oportunidade para olhar para os seus contratos de seguro com atenção e, se necessário, pedirem conselho especializado a mediadores ou à própria seguradora para avaliarem as coberturas que têm, os capitais que têm seguros, verificarem se têm os riscos que mais valorizam protegidos por seguro. Feita essa análise, pode acontecer que necessitem de rever os seus contratos de seguro para os adequarem melhor às suas necessidades e à sua capacidade financeira, nuns casos revendo em baixo, noutras em alta, o nível e coberturas e de preços que estão a pagar.

Quais os seguros que hoje se encontram em queda? E aqueles em que se sente uma subida?
A maior queda registada tem sido nos seguros de Vida e nos seguros de acidentes de trabalho, neste último caso porque as empresas tiveram as suas atividades temporariamente paralisadas ou a trabalhar a partir de casa. Mas, em geral, todos os ramos estão a sofrer uma redução, face ao período homólogo do ano anterior. A única exceção, como seria de esperar, é o ramo saúde onde há um crescimento da procura. Houve uma importante atenção a esta área, pela população, tendo em conta que a maioria dos recursos públicos foram concentrados para as questões relacionadas com a COVID-19. O resultado foi um crescimento de 8% no ramo saúde até agosto, impulsionado essencialmente para o tratamento de outras doenças que não a COVID-19.

É verdade que a maior parte dos seguros não cobre as despesas de internamento de doentes COVID-19?
O sistema segurador é um sistema verdadeiramente globalizado. Os riscos cobertos em Portugal ou em qualquer outro país são depois “mutualizados” à escala internacional através do mecanismo do resseguro, que permite repartir os custos dos sinistros pelos operadores no mundo inteiro. Ora, quando estamos perante um risco que se verifica, em simultâneo, à escala global, como é o caso das pandemias, essa mutualização não pode ser feita e, como tal, o sistema segurador não consegue assegurar o necessário equilíbrio do sistema, no seu todo. Daí que o risco de pandemia esteja, em regra, excluído das apólices de seguros porque é contrário a uma regra básica do sistema segurador.
Existem, entretanto, exceções, pois há empresas seguradoras que estão a cobrir internamentos por COVID-19. Por isso, o tomador do seguro deverá consultar a sua seguradora, pois cada caso é um caso e cada empresa tem uma relação individualizada com o seu cliente.
Não obstante isso, as seguradoras nacionais assumiram perante os seus clientes o pagamento dos custos com os testes de rastreio da COVID-19 e, neste momento, já suportaram com os testes e os equipamentos de proteção individual, mais de 15 milhões de euros.

Há quem diga que este será um ano “perdido” para o setor dos seguros. Concorda com esta afirmação?
Não concordo. Todos os anos são importantes, nem que seja pela aprendizagem que se faz. E por exemplo, este ano, as empresas de seguros deram um salto tecnológico enorme que, de outro modo, porventura levaria alguns anos a concretizar-se. Por isso, mesmo os anos de crise podem ter aspetos positivos, se soubermos transformar os desafios em oportunidades e conseguirmos evoluir no sentido de prestar um melhor serviço aos nossos clientes.

Quais os desafios com que o setor terá que enfrentar no futuro?
Os impactos desta pandemia são ainda uma incógnita em várias vertentes. O setor, neste momento, está a ser desafiado a assumir uma posição de vanguarda nestas mudanças, e demonstrar, mais uma vez, a sua capacidade de dar respostas eficientes e inovadoras num cenário de alterações rápidas. Um dos próximos desafios que temos de superar é redesenhar a oferta de produtos das seguradoras de forma a adaptá-los à nova realidade.