Em tempos de pandemia e no que toca ao mundo do trabalho há inúmeros cenários diferentes, desde os que estão na chamada “linha da frente” e que estão a trabalhar mais até do que o normal porque as circunstâncias exigem que assim seja; os que estão em teletrabalho porque a sua profissão o permite e/ou porque a situação familiar o exige; aos que não podem mesmo trabalhar porque a sua profissão pertence a uma área não prioritária e até, de alguma forma, perigosa pelo aglomerar de pessoas. Esta última vertente retrata aquilo que hoje é a vida dos artistas, sejam eles do teatro, da música, da pintura, da escultura, tudo o que envolva juntar público está parado e não se sabe sequer quando vai retomar já que, mesmo que legalmente seja possível, o receio das pessoas será um ponto a ponderar.

Zé Café, que falou a O Portomosense, é um dos elementos do conhecido duo do concelho, Zé Café e Guida. Os parceiros de profissão, que são também um casal, vivem exclusivamente da música, nomeadamente dos espetáculos. «Tínhamos bastante serviço para este ano, ainda não está tudo desmarcado, mas a maior parte sim e penso que vão desmarcar o resto», começou por dizer. «Dantes recebia telefonemas para marcar espetáculos, agora recebo para desmarcar. Uns marcam para o ano que vem, outros dizem que, se não houver nada em contrário, voltam a contactar», conta.
O artista revelou que o casal, que tem uma filha pequena, se está «a governar com um pé-de-meia» porque se não tivessem «seria difícil» suportar esta situação. «Quem não arranjou um pé-de-meia está em problemas», atira. O grupo tem «uma casa ou duas» em que é hábito atuar e pensa que vai manter esse serviço quando o mercado reabrir, no entanto Zé Café afirma que «nas festas é que se ganha mais» e adianta que «de junho a fins de setembro» tinham «70 e tal serviços».

As pessoas que os seguem pedem para fazerem «diretos» a atuar porque «têm saudades», no entanto Zé Café considera que o caminho não é «encharcar as pessoas de música ao vivo, por vezes é um exagero». Fizeram já alguns diretos na página de Facebook do grupo: «É um treino que fazemos, para não esquecermos o que sabemos», refere.
Licínio Ferraria faz parte de uma banda, Klimax, atua a solo como LF Music e faz «de tudo um pouco dentro desta área» do espetáculo, «desde agenciamento artístico, produção de eventos» e nas festas, trata de «toda a parte logística, das licenças à divulgação». Tinha, até ao final de setembro, «todos os fins de semana reservados», mas, neste momento, admite que «não há condições para haver eventos». «Esta atividade é a primeira a parar e vai ser a última a recomeçar, isso está garantido», afirma, considerando que os artistas vão ter «de arranjar outra forma de subsistência e de passar o tempo», têm que ter «um plano B e um plano C».

Quando conversou com O Portomosense, numa situação normal estaria nos Estados Unidos, de onde depois partiria para o Canadá «para a animação no convívio de emigrantes de São Bento, as maiores festas do concelho de Porto de Mós fora de Porto de Mós, e que podem juntar 500 ou 600 pessoas». Licínio Ferraria afirma que uma das coisas que o deixa mais triste é que este ano «ia ser muito bom [para si] em termos de eventos»: «Tinha um convite para as comemorações do 10 de junho em Newark, nos Estados Unidos, era provavelmente o evento de topo, o mais mediático que alguma vez tive na vida, poder estar nas comemorações do 10 de junho numa comunidade que tem meio milhão de portugueses, seria um grande marco», desabafa. Além disso, tinha já programadas cinco viagens para a América. «A passagem de ano, se Deus quiser, será em Vancouver», diz.

Licínio Ferraria afirma que «as festas fazem falta para as pessoas se encontrarem». Além disso, «o que está inerente à realização de uma festa, mexe com tudo nas aldeias, em termos económicos, por exemplo». Há artistas para quem a música «é um part-time, no entanto é um extra [no orçamento] que ajuda a subsistir montes de famílias», diz. De acordo com o músico, a área «tem sido posta um bocado de parte» e, nesse sentido, afirma que «está a haver uma união [por parte dos colegas de profissão] para no futuro todos se precaverem melhor em termos sociais». «Isto é das profissões mais precárias que temos», conclui.