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“Senhor” Carlos Pinção deixa-nos aos 94 anos

26 Maio 2023
Isidro Bento

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Isidro Bento

26 Mai, 2023

Porto de Mós despediu-se no passado dia 16 de maio de Carlos Pinção, uma das suas figuras emblemáticas. Na hora do derradeiro adeus “o último romântico”, ou “o último cavalheiro” (como alguns lhe chamaram), teve a seu lado dezenas de pessoas, de várias gerações, num tributo que diz muito sobre este portomosense de 94 anos nascido e criado na vila de Porto de Mós e com toda uma vida dedicada à Cultura.

Carlos Pinção, que tinha como imagens de marca um cavalheirismo como já há poucos e uma esmerada educação, era, também, um “aglutinador”, conseguido reunir à sua volta, num qualquer projeto que tivesse entre mãos ou numa tertúlia à mesa do café, pessoas de idades, experiências e convicções bem distintas entre si.

Como dizia alguém que o conheceu de muito perto, «a música e as canções eram a gasolina que fazia funcionar o motor da sua vida». Foi músico, compositor, professor de música e, nesses e noutros papéis, fez parte de um conjunto musical afamado na região, escreveu músicas e canções premiadas em festivais, e marchas que percorreram, anos a fio, a Avenida. Presidiu à Banda Recreativa Portomosense e trabalhou com crianças do 1.º Ciclo de escolas da Batalha (com quem chegou a formar um grupo) e de Porto de Mós. Foi também colaborador d’O Portomosense, assinando em nome próprio ou sob pseudónimo, espaços temáticos e crónicas que espelhavam não só a sua cultura mas também o humor inteligente, educado e corrosivo q.b. que também o caracterizava.

Apesar da vida lhe ter sido madrasta, nomeadamente, roubando-lhe os seus dois filhos, Carlos Pinção manteve até ao último dos dias um sorriso e uma alegria de viver contagiosos.

 

Elogio fúnebre – “O último romântico”

Partiu o último romântico: Carlos Pinção.

Não quero falar dos seus auto-apregoados noventa e quatro mil quilómetros, já que penso terem sido, antes, noventa e quatro voltas ao Sol, o astro maior que sempre lhe iluminou a vida.

Sempre que trocava animados minutos com ele, em companhia serena e divertida, caíam-lhe as palavras, musicadas na aragem tranquila do tempo, na mestria melódica de um Paganini, bem longe das suas amarguras… mais que sentidas… E foram tantas as que a vida lhe guardou, onde cabem os tenramente malogrados Fernando e o meu grande amigo Nuno Pinção, feito de mãos de um Cipião, amanhado por mim, na loucura de um Calígula de Camus. E foram as mágoas, muitas e grandes… por dentro e por fora… por dentro e por fora…

E foi um dos pioneiros das marchas, dos ranchos, das bandas, dos festivais da canção e até dos carnavais…
Para boémio ter-lhe-á faltado um vício vadio, nomeadamente uma pinguita de quando em vez…

E terá faltado, também, o reconhecimento colectivo desta terra de invejosos. Tenho pena… Muita pena…

Não terá sido um engenheiro a arrumar o sítio onde, por certo estará, mas um requintado arquitecto, cheio de espontaneidade e de traço largo… muito largo para lá caber toda a gente.

Estão a acabar os homens do vento Norte. O Pinção terá sido um dos últimos a mastigar esta brisa, de tal forma que deixou efectivamente Porto de Mós mais pobre.

Numa das últimas vezes em que com ele estive… deixou-me vários envelopes de criações e registos dele… Viraram relíquia esses documentos.

Os K3 diários, três quilómetros de passeios matinais para refrescar os tais noventa e quatro mil quilómetros, dariam para mais de duas voltas ao nosso planeta azul.

Pode não ter sido o João Serra dos multiplicados sorrisos, mas foi uma espécie amassada de coisas boas do Homem do Saldanha, imortalizado no talento de Carlos do Carmo, com música de Tiago Machado e um brutal texto de Ângelo Firmino.

Aqui fica um excerto que penso casar com o meu conhecido privilegiado Carlos:

Seja bem-vindo meu amigo,
À nossa rua, meu amigo,
Faz algum tempo não o via, por aqui
Nunca é demais, há sempre espaço,
Venha de lá esse abraço.
Folgo em vê-lo bem disposto,
A dizer olá a quem passa
Com o prazer espelhado no rosto,
Bem-vindo à nossa rua meu amigo.
Faz algum tempo não o via por aqui,
Nunca é demais, há sempre espaço,
Venha cá dar-me um abraço…

À margem de tudo isto, e tristemente, não dei conta de representação municipal musculada num adeus terreno a um dos mais equilibrados sensores culturais, que por cá passaram. Provavelmente nem terão dado conta disso. Cá para mim, que não voltarei a ter nas redondezas tanta elegância, ficará, por isso e para sempre, um eterno ABRAÇO.

Texto | Silva Neto 

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