Após uma paragem de dois anos imposta pela pandemia, as ruas de Porto de Mós voltaram a acolher nos dias 26 e 27 de março, a tradicional e secular procissão do Senhor dos Passos. Este ano a celebração foi presidida por um bispo, algo que a fazer fé na memória dos mais velhos terá sido a primeira vez que aconteceu em muitas décadas se não mesmo no último século.

O bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança, D. Rui Valério, que há dois anos tinha aceitado vir a Porto de Mós fez questão de cumprir o compromisso e foi ele que assumiu o lugar de honra sob o pálio levando nas mãos a relíquia do santo lenho e se dirigiu aos fiéis nos sermões, ponto alto de uma procissão cuja origem local remontará a meados do século XVII.

A anteceder a procissão do Senhor dos Passos teve lugar na noite de sábado uma outra com a imagem de Nossa Senhora da Agonia, da Igreja de São Pedro para a de São João. Este primeiro momento foi um sinal claro de que apesar do interregno, o apego dos portomosenses à secular procissão não diminuiu porque logo ali se juntaram muitos fiéis.

No domingo, o sermão do Pretório foi a primeira etapa da evocação da derradeira caminhada de Cristo. Iniciou-se, depois, a procissão em direção à Praça da República, onde teve lugar o sermão do Encontro e o momento sempre emocionante em que a imagem de Nossa Senhora da Agonia se encontra com a do Senhor dos Passos. Este ano, houve uma novidade inspirada na guerra na Ucrânia. No final do sermão, a jovem Carolina Pereira cantou Miraculosa, Rainha dos Céus, cântico visto como um tocante hino à paz.

A luz da vida representada nas crianças

Com a guarda de honra prestada pelos bombeiros de Porto de Mós, o acompanhamento musical da Banda Recreativa Portomosense e os cânticos assegurados pelo grupo coral da igreja, a procissão prosseguiu a caminhada até à Igreja de São João percorrendo a zona histórica. Lá chegada, novo e último sermão, neste caso, o do Enterro. E aqui, mais um ponto alto: a dado momento, o pano negro que serve de cenário à pregação “rasga-se” e a negritude da morte dá lugar à luz da vida personificada na beleza e candura de crianças, os “anjinhos”, que se apresentam por trás do altar aos pés de Cristo mas numa posição superior onde podem ser vistos por todos.

Depois do bispo ter proferido o último sermão, mais um momento de grande carga simbólica, a procissão do Enterro, com a imagem do Senhor dos Passos coberta com panos pretos, em direção à Igreja de São Pedro onde D. Rui Valério se dirigiu pela última vez a todos os que preenchiam o velho templo e deu a bênção final. Também aqui, e como é hábito, José Carlos Vala, em nome da organização, fez os agradecimentos da praxe às dezenas de pessoas e entidades públicas e privadas que antes e durante a cerimónia colaboraram para o seu bom êxito. Uma menção especial, ainda, para agradecer a presença do bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança.

A terminar, a banda tocou Eterno Adeus de Saudade, cântico mariano entoado em emotivo uníssono pelos fiéis. E assim, dois anos depois, cumpriu-se a tradição. A Procissão do Senhor dos Passos voltou a ser um sinal de demonstração de fé dos crentes mas também testemunho vivo da herança cultural do concelho e valorizada enquanto tal por quem não professa da mesma crença religiosa.

“Temos de ir ao encontro dos novos Cristos crucificados”

Os sermões do Pretório, do Encontro e do Calvário evocam momentos da última caminhada de Jesus Cristo e em cada um deles o bispo, Rui Valério, encontrou motivos de reflexão que partilhou com os fiéis. Assim, pegando no exemplo de Pedro que por três vezes negou conhecer Jesus, o bispo questionou os fiéis de quantas vezes é que já negaram a sua «presença no grupo dos discípulos de Jesus», e de quantas tiveram «vergonha de participar no seu círculo de comunhão e intimidade». «Pedro teve vergonha do amor que sentia por Jesus e isto é uma coisa que nós, na nossa vida, tantas vezes repetimos em relação à própria família e aos amigos», disse.

«Quando se começa a negar esta relação com Cristo é um processo imparável, tudo acaba por ser negado depois. A pessoa nega-se a si própria na sua condição de crente e de ser humano. A cultura de morte na qual nós vivemos, e que põe o homem contra o homem é a continuação dessa lógica. Os acontecimentos das últimas semanas em solo europeu, com o estrondo das bombas, o que vemos ali se não o ser humano que se quer negar a si próprio?», questionou.

“Tomemos as dores do outro como nossas”

A imagem da mãe, que vai ao encontro do filho que sofre, serviu também de mote para falar da necessidade de cada um ir «ao encontro dos novos Cristos crucificados». E quem são essas pessoas? Todos aqueles «que padecem sob o peso da pobreza; que vivem a incerteza do desemprego; que padecem sob o peso da emigração e que são obrigados a deixar a sua pátria à mercê da guerra e da violência». De acordo com o clérigo, Maria vai ao encontro destes no sentido de os libertar da sua cruz, de partilhar das suas dores. «Que no coração de cada um haja disponibilidade e espaço não só para o peso dos seus problemas, mas que à luz do exemplo de Maria, abra a sua alma e a sua vida para que possa acolher o sofrimento de quem sofre, para que possa sentir como seu aquilo que é o drama vivido por tantas mulheres e tantos homens, porque ser mãe é isso mesmo, não é o facto biológico. Ser mãe é participar no destino de quem é filho. Ser mãe é carregar as dificuldades, é carregar a cruz dos crucificados quando estes crucificados são filhos», reforçou.

Mais do que sentir a dor do outro, Rui Valério, desafiou todos a «ir ao encontro de quem necessita do nosso conforto, da nossa consolação, de quem partilhe os seus sofrimentos».

No último sermão, o pregador explicou que a cruz que representa Jesus crucificado, tem um outro significado menos imediato. O tronco vertical representa «a vitória da vida sobre a morte» mas, também, «a firmeza e a integridade de quem não tem medo, de quem não vacila nem verga». Por sua vez, o tronco horizontal «é um abraço de Deus aos homens», mas também «um símbolo da igualdade», lembrando que quando olhamos na horizontalidade sentimo-nos nem melhores nem piores que o outro, mas iguais ao nosso semelhante.

Fotos | Isidro Bento