Durante cerca de cinco semanas, foi através da janela do quarto que Vítor Manuel Santana, de 71 anos, viu o mundo. Ficou confinado a essa divisão, depois de descobrir que estava infetado com COVID-19 e foi a partir de lá que lutou contra a doença. A residir na freguesia das Pedreiras, estava longe de imaginar que um dia essa janela, com vista para o IC2, se tornasse na sua grande fonte de distração num combate a uma pandemia. «Será que amanhã ainda estarei vivo?» foi apenas um dos pensamentos que lhe passou pela mente nesse período. Hoje está recuperado, mas ainda assim vive amedrontado com receio de que o mal possa voltar.

Quinta-feira, 26 de março. O dia em que o chamado “inimigo invisível” começou a manifestar-se. «Comecei a sentir frio, apesar do tempo não o estar. Pus-me dentro do carro para apanhar sol mas senti que não andava bom», recorda. À tarde, mediu a temperatura e o termómetro marcou os 37,5 graus. De imediato desconfiou que pudesse ser o novo coronavírus, apesar de não ter viajado para fora do país, nem ter estado em contacto com alguém infetado.
No dia seguinte, o estado febril subiu para os 38 graus e a esposa decidiu que estava na altura de ligar à médica de família. «Ela disse que, com certeza, não deveria de ser nada porque não tinha os sintomas da COVID-19», recorda. A febre havia de continuar no sábado, mas na impossibilidade de lhe poder voltar a ligar, por ser fim de semana, «deixou-se estar». Depois de uma noite mal passada e do adensar do mal-estar decidiram, no domingo, telefonar para a linha Saúde 24. «Disseram-nos para estarmos lá [no hospital] o mais rápido possível. Almoçámos e fomos logo», conta Vítor Manuel Santana.

Chegado ao Hospital de Santo André, em Leiria, fizeram-lhe o teste de diagnóstico à COVID-19. «É um bocadinho difícil, não é muito agradável», descreve. Seguiu-se um raio-X aos pulmões e uma colheita de sangue. «A certa altura percebi que estavam a falar de mim», confessa. Depois de um longo período de espera sem respostas dirigiu-se ao gabinete de um médico, que o questionou sobre a razão que o fazia estar à espera. «Ele entregou-me os papéis e vim-me embora», refere.

À meia-noite, o inesperado acontece: recebe uma chamada do hospital a avisar que tinha havido «um equívoco, que era para ficar internado» e que não devia ter saído. Perante a sua recusa, mas com a garantia que lá se deslocaria na manhã seguinte, a resposta foi que uma vez que estava em casa, que aí permanecesse. «No outro dia, ligam-me a dizer que o teste tinha dado positivo e queriam saber os contactos das pessoas com quem costumava estar mais frequentemente», conta. Hoje, sabe que as pessoas cujos nomes facultou foram obrigadas a ficar de quarentena, assim como a sua esposa e os seus filhos.

O alívio de receber dois testes negativos

Carregando o peso de saber que estava infetado pela COVID-19, Vítor Manuel Santana ficou de imediato em isolamento. Sem acesso à televisão, a comida era deixada à porta do quarto, pela esposa. Além de Ben-u-ron e outros comprimidos, passou também a ser medicado com antibióticos para travar o início de uma pneumonia. Recorda que, a primeira semana foi «a mais complicada» porque a febre «ia e voltava». As idas à casa de banho eram frequentes, por causa da diarreia e da ingestão, por vezes, de quatro litros de água por dia. Nesse período perdeu 11 quilos, que entretanto já recuperou. «Eu que comia pouco, agora como três vezes mais. A minha mulher até fica admirada», confessa, entre risos.
No dia 19 de abril, pediram-lhe que fizesse novamente o teste. Dois dias depois recebeu o resultado: negativo. Contudo, o receio que pudesse ser o chamado “falso negativo”, fê-lo continuar a viver como se ainda estivesse infetado. Uma semana depois, repetiu o mesmo procedimento e o teste voltou a dar negativo para a doença: «Senti uma alegria muito grande e só pensei: “Desta já me escapei!”». Para trás ficou uma luta ganha contra o novo coronavírus em que, garante, a família, os amigos e a Câmara Municipal tiveram um papel fundamental.

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