Voltou às ruas da vila de Porto de Mós, o Shop On, uma iniciativa de promoção e animação do comércio local, organizada pela Associação Comercial e Industrial de Leiria (ACILIS) em parceria com o Município. O regresso aconteceu no dia 15 de outubro e as opiniões dos comerciantes com quem conversámos dividem-se: há quem se queixe de que ficou «aquém das expectativas» e há quem fale de um «regresso em grande». No entanto, a maioria opta pelo meio termo: «Já foi bem melhor, mas deixar de fazer também não é opção, o comércio de Porto de Mós precisa deste tipo de ações».

António Vala, o proprietário de uma das lojas mais antigas da vila, a Sapataria Vala, é um dos que defendem que este tipo de ação é de grande importância para o comércio local e, por isso, lamenta que tenha havido «comerciantes que se inscreveram e nem sequer abriram». Apesar de não saber as razões, considera que «é bastante aborrecido tanto para a ACILIS como para a Câmara investirem na animação de rua e depois só abrirem meia dúzia de lojas». Este ano, o lojista viu «mais gente na rua que num sábado normal, mas em termos de clientes, zero». Apesar disso, fez questão de cumprir o compromisso de manter a loja aberta até às 23 horas.

Tal como aconteceu nas edições anteriores, veio à porta do seu estabelecimento receber os grupos de animação e só lamenta que estes tenham estado praticamente «a tocar para o boneco» por ausência de público. «Só no primeiro ano é que houve muita gente, porque era novidade e nessa altura valeu a pena. Agora, tanto esta edição como a anterior foram uma desilusão. As pessoas das freguesias não se deslocam para este tipo de evento. Os mais novos compram online e os outros não querem vir de propósito às lojas de rua, quando têm os centros comerciais abertos até às tantas», diz, com tristeza.

Tendo em conta a «fraca afluência», António Vala teme que a ACILIS não volte a trazer o Shop On a Porto de Mós «ou mesmo à Batalha, onde aconteceu situação idêntica», mas caso traga deixa um conselho: «É necessário apostar na divulgação feita com mais tempo e de uma forma mais visível. Só os papéis na montra não chegam», considera.

Para Ana Ferreira, da Danoca Boutique, este ano «o Shop On foi mais fraquinho, talvez por ter sido em outubro, quando dantes era mais no verão». A lojista gostou da animação, mas considera que «veio um bocadinho tarde». No seu entender, devia ter começado logo depois de almoço ou a meio da tarde. «As pessoas perguntavam se não havia animação e acabavam por ir embora, porque não havia nada que as prendesse. O insuflável também foi montado muito tarde e, à noite, passava despercebido. A moça estava a trabalhar praticamente às escuras. A Câmara devia ter colocado iluminação extra na Praça Arménio Marques», justifica.

«Se for para ser como este ano não vale a pena estarmos aqui até às 11 da noite para nada», diz, reconhecendo, contudo, que «houve lojas que se inscreveram e não abriram e outras que fecharam muito mais cedo que o previsto porque pensavam que já não ia haver animação e não tinham clientes». «Na última vez correu muito bem, havia gente nas ruas e não sei se era por ser ano de eleições, mas parecia que havia muito mais empenho por parte dos autarcas. Se se fizer de novo, espero que volte a boa organização e que o poder local tenha uma presença ativa, como teve no passado», frisa a lojista.

Gisela e Marlene Ferreira, da Reflexus Boutique, outra das lojas participantes, fazem questão de dizer sempre “sim” a tudo aquilo que promova o comércio local e foi com esse espírito que, mais uma vez, aderiram, explica Gisela Ferreira. «São iniciativas sempre muito boas e este ano correu muito bem. Após uma pausa de dois anos, as pessoas estão sedentas por fazer algo e foi o que aconteceu», refere.

Gisela Ferreira considera que «a divulgação foi muito bem conseguida e que daqui sairá retorno». Já a animação poderia ter corrido um pouco melhor, «não por falta de qualidade dos grupos, bem pelo contrário», mas pela escolha dos horários: «Durante a tarde não houve e depois arrancou à hora a que as pessoas estavam a jantar, o que fez com que algumas vezes os grupos atuassem sem público a assistir». Para edições futuras sugere que a animação seja vista mais na perspetiva de cativar o público infanto-juvenil que o adulto porque, «atrás das crianças, vem toda a família e enquanto estão ocupadas e em segurança os pais podem visitar as lojas e, eventualmente, fazer compras».

Iniciativa teve duas dezenas de lojas inscritas

Inscreveram-se para participar na edição de 2022 do Shop On, 21 estabelecimentos de várias áreas do comércio e restauração. À semelhança dos anos anteriores, o desafio lançado pela ACILIS aos lojistas foi de, nesse dia, levarem a cabo descontos e promoções, bem como iniciativas que, de algum modo, atraíssem os potenciais clientes aos seus estabelecimentos. ACILIS e Câmara deram também o seu contributo a este nível ao delinearem um programa de animação que contou com a DiArteDance, Grupo de Concertinas da Cabeça Veada, Ruído à Portuguesa e Grupo Típico Entre Serras. Enquanto que a escola de dança teve duas atuações em zonas distintas da vila, os restantes grupos atuaram, “à vez” no interior ou junto às lojas aderentes.

“Câmara fez tudo aquilo com que se comprometeu”

O Portomosense falou também com o presidente da Câmara, Jorge Vala, a quem pediu um balanço desta atividade co-promovida pelo Município. O autarca começou por explicar que não esteve em Porto de Mós nesse dia pelo que apenas falou, posteriormente, com alguns comerciantes que se mostraram «muito desiludidos» e que criticaram também «quem fechou mais cedo» ou quem «nem sequer esteve aberto fora do horário normal». «Perante isto, falei com o vereador responsável que me garantiu que, da parte da Câmara, tudo aquilo com que nos comprometemos foi feito e sei que o mesmo aconteceu por parte da ACILIS», disse ainda.

«Ao que julgo saber, das 19 lojas inscritas, só seis estiveram abertas fora do horário normal, o que é muito significativo. Infelizmente, parece não ter havido da parte de alguns comerciantes a ação esperada e isso levanta algumas questões», afirmou Jorge Vala. «É importante pensarmos nas dinâmicas atuais da própria vila, especialmente agora que passámos à segunda fase da candidatura ao projeto Bairros Comerciais Digitais [que conta com um conjunto de apoios financeiros à digitalização do comércio, à sensibilização e capacitação de trabalhadores e empresários e à intervenção no espaço público na área definida como bairro comercial digital]», referiu, explicando que para se definir um plano é importante perceber, afinal, se se está a lidar com uma geração de comerciantes mais conservadora e mais velha ou uma mais nova e mais moderna, com maior predisposição para novos desafios. No seu entender será importante «contar com ambas» mas com a certeza de que «a geração mais nova tem de ser o motor para o futuro».

O Portomosense tentou obter o mesmo balanço por parte da ACILIS, mas tal não se revelou possível em tempo útil.

Fotos | Isidro Bento