1615. Era desde este ano que o sino da Igreja do Alqueidão da Serra tocava de meia em meia hora durante as 24 horas. 2022 foi o ano em que isso deixou de acontecer. Agora o sino continua a tocar mas apenas entre as 7 e as 23 horas, situação que não está a agradar à maioria da população. A justificação para esta decisão é simples: uma habitante, incomodada com o barulho do sino, queixou-se e ameaçou avançar de forma judicial e o padre, em consonância com a Comissão Económica da Igreja, decidiu desligar o sino durante a noite. Depois desta decisão muito se “discutiu” nas páginas da internet ligadas ao Alqueidão da Serra e à Igreja e aqui trazemos a visão de todos os envolvidos.

Insatisfeito com as proporções que esta situação tomou, o padre Vítor Mira diz que o seu objetivo ao fazer um comunicado onde explicou todo o contexto, foi precisamente «evitar pronunciamentos» em questões que levam a que as pessoas falem «com emoção» e por vezes percam a razão, sobretudo nas redes sociais. «Houve uma senhora, que é moradora recente, que me abordou a dizer que o sino a incomodava, muito desagradada, e logo quando falou comigo disse que se o caso não fosse resolvido recorria às autoridades», explica o pároco. O padre, juntamente com a Comissão, procurou perceber se havia razão judicial por parte da queixosa. «Soubemos que, de facto, a Lei do Ruído diz que das 23 às 7 horas não pode haver barulho, o que inclui o sino», esclarece. Foi então que Vítor Mira e a Comissão Económica decidiram que era mais sensato desligar o sino durante todo o período da noite: «Se não fizéssemos íamos pagar uma multa, a Igreja é uma instituição do bem e estarmos metidos em tribunais quando há uma lei que é clara, não faz sentido». O padre frisa ainda que para ele é «indiferente que o sino toque ou não», no entanto consegue perceber uma parte da indignação da população. «Há aqui uma questão de fundo que parece ser a mais importante para as pessoas, elas gostam do sino, é tradição e veio uma pessoa de fora alterar uma coisa que os de cá sempre aceitaram», salienta.

Albertina Dias vive no Alqueidão da Serra desde novembro de 2021 e desde então que «não conseguia dormir»: «Já andava às cabeçadas, desequilibrada porque não dormia, era impossível. Sentia-me cansada, esquecia-me de tudo, foi um martírio», refere. Até já com a situação resolvida considera que o sino acaba por condicionar a sua vida. «Incomoda, às 7 horas tenho que acordar, eu estou reformada, não tenho obrigação de acordar a essa hora e só me consigo deitar à meia noite, não é correto obrigarem-me a deitar a essa hora», salienta. A moradora conta ainda a sua versão da história. «Fui falar com o senhor padre e disse-lhe que não aguentava, que não conseguia dormir porque quando estava para adormecer o sino tocava. Ele disse-me que ia falar com a Comissão e que depois me dizia alguma coisa mas nunca mais me disse nada», afirma. Albertina Dias agiu logo enviando «uma carta com aviso de receção» dirigida ao pároco.

«Não consigo compreender», diz Albertina Dias, quanto às pessoas que defendem que esta era uma tradição da freguesia que não se deveria perder. «Não é uma tradição, o que é tradição é a pedra e eles estão a abandoná-la. Os sinos existem em todo o lado desde o século XII», acrescenta ainda. Depois do sino ter sido desligado durante a noite, a moradora tem sido vítima de algumas pressões. «Começaram a escrever-me cartas a dizer que tinha a população toda contra mim e já vieram cá deitar umas bombas do Carnaval e apitar à uma da manhã», conta Albertina Dias, que garante que isso não a intimida. «Comigo a chantagem não funciona, nunca admiti e não tenho medo», afirma.

“População devia ter sido ouvida primeiro”

Dulce Gabriel é o espelho de uma população revoltada e, através da página que gere dedicada à freguesia, expressou isso mesmo, numa publicação em que as pessoas mostraram a sua insatisfação. Já a Comissão Económica da Igreja defendeu-se, lembrando que tinha que cumprir a lei. A discussão até fez com que Dulce Gabriel desativasse a página durante uns dias, evitando discussões que não vão ao encontro do espírito que quer. Na opinião da alqueidoense, embora o desfecho pudesse ter sido o mesmo, a cedência ao pedido de Albertina Dias não deveria ter sido tão rápida. «A Comissão tem razão, até porque é a lei e eles tinham um mandado judicial mas penso que deveriam ter falado melhor com a senhora e explicar que as tradições eram assim, a população devia ter sido informada, só disseram na missa quando o sino já estava desligado», frisa. Dulce Gabriel salienta ainda que não quer que a sua vontade prevaleça, «não é essa a questão», mas sim a vontade da população que, volta a referir, «deveria ter sido ouvida».

Qual é a verdadeira importância do sino? «Há pessoas aqui que durante a noite gostam de ouvir o sino, estão sozinhas em casa, algumas não dormem muitas horas e gostam de ouvir», frisa. O que chateou ainda mais a população foi o facto das queixas partirem de alguém que não é “filho da terra”: «O sino está ligado há 400 anos e nunca incomodou ninguém, porque é que agora ela se incomoda? Não percebo como lhe dão razão. Nós temos que nos habituar a estas coisas, se a senhora veio para aqui viver e a incomoda, o problema é dela. De repente chegou aqui e muda as regras, não faz sentido», afirma Dulce Gabriel. A alqueidoense está convicta também que se tivessem seguido com o processo para tribunal, poderia correr bem para a Comissão. «Penso que o juiz iria considerar que o sino está a tocar há 400 anos e que toda a população é a favor», diz. «Tenho que aceitar a decisão e as leis mas penso que foi tudo muito precipitado, quando todos os pedidos que a população fez antes em relação a outras coisas não foram aceites», conclui.