Somos todos páginas do mesmo jornal

by | 16 Abr 2020

Cada dia que passamos sós, afastados dos que mais gostamos, é um dia a menos que falta para nos encontrarmos e voltarmos a estar juntos. Acreditamos nisto, queremos acreditar. E é por isso que o país, em peso, tem feito um esforço para se manter em casa e para puxar, ao mesmo tempo, a corda que faz achatar a tão famosa curva.

Desde que foi decretado o Estado de Emergência, passaram pelo menos duas datas importantes que são, para a maioria das pessoas, motivo de reunião da família ou de parte dela: o Dia do Pai e a Páscoa, esta bem mais recente. Não sabemos quantas mais datas vamos passar afastados. Escrevi algures, recentemente, que descobri que a parte má de ter uma família grande é ter mais pessoas de quem sentir saudades. E quando esse sentimento, tão português, me aperta o coração, sinto-me um pouco egoísta. Quão piores estão todas as pessoas que já perderam um familiar? Quão piores estão todos os netos que se afastaram dos avós para os proteger e que perceberam, agora, que nunca mais os vão abraçar? Quão piores estão os bombeiros, os enfermeiros, os médicos, os assistentes operacionais que, todos os dias, têm de ir trabalhar e que, por isso, se privam de estar com os filhos, com os maridos, com as esposas? Quão pior estará a Ana, o Bruno, a Carolina, o Diogo, a Ester, o Frederico, a Gabriela, o Heitor, a Isabel, o Júlio, a Leonor, o Manuel, a Núria, o Óscar, a Paula, o Quirino, a Rute, o Simão, a Teresa, o Ulisses, a Vera, o Xavier e a Zélia – todos, assim, de A a Z para que ninguém se sinta excluído?

Lá diz o ditado que “com o mal dos outros posso eu bem”, mas agora não, agora somos que nem Três Mosqueteiros e queremos mesmo ser “um por todos e todos por um”. Alguém me dizia que temos mesmo que sair disto melhores pessoas. E se não for isto a transformar-nos em melhores pessoas não sabe o que será. Chegou o tempo de mostrarmos de que raça somos feitos. É hora de ir ao supermercado e deixar o último pacote de farinha para outra pessoa. É este o momento para dar o nosso lugar na fila a alguém mais fragilizado. É este o tempo de apoiar as pequenas empresas e os produtores nacionais.

Em casa, sobram-nos horas. Vamos aproveitá-las para aprender a fazer o pisca nas rotundas, para ensaiar o “bom dia” que um dia havemos de dar ao vizinho no elevador. Vamos à janela, respirar fundo e interiorizar que o melhor passeio de domingo à tarde não é no shopping, as pessoas que lá trabalham também têm direito a ter “domingo à tarde”. Vamos lembrar-nos que quando reclamamos nos serviços públicos, estamos a esquecer-nos que não conhecemos a realidade de quem está atrás do balcão. Vamos treinar para ser a sociedade civilizada que todos apregoamos ser.

Já muita gente chamou a este vírus de “democrático”. Não escolhe raças, estratos sociais, géneros, não escolhe países, credos ou histórias. Não se deixe escolher.

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