Início » Tourada regressa às Festas de São Pedro

Tourada regressa às Festas de São Pedro

5 Julho 2019
Catarina Correia Martins

Texto

Partilhar

Catarina Correia Martins

5 Jul, 2019

No próximo dia 7 de julho, último dia das Festas de São Pedro e inserida no cartaz das mesmas, vai realizar-se uma Corrida de Touros, numa praça amovível montada junto ao Picadeiro, no recinto das Festas. Agendado para as 18 horas, o espetáculo será de homenagem aos bombeiros de Porto de Mós e o cartaz revela nomes como Marco José, Sónia Matias, João Moura Caetano e Paulo Jorge Santos, todos cavaleiros, estando ainda anunciados três grupos de forcados: Forcados Amadores do Ribatejo, Tertúlia Tauromáquica do Montijo e Aposento Barrete Verde de Alcochete. Os touros são da ganadaria de Paulo Caetano. Os bilhetes podem ser adquiridos nos Bombeiros de Porto de Mós e no secretariado das Festas. Este é um evento com tradição no concelho, no entanto há vários anos que não se realizava.

A presidente da entidade organizadora das Festas, o Fundo Social dos Funcionários do Município de Porto de Mós (FSFMPM), Ana Matos, explicou a O Portomosense que «houve um empresário das lides tauromáquicas» que entrou em contacto com a Câmara Municipal e com o FSFMPM e que «mostrou vontade de voltar a organizar uma corrida de touros em Porto de Mós». «Não nos pareceu de todo descabido sendo que a organização é exclusiva do empresário», referiu Ana Matos, considerando que «há muita tradição e muita afición no concelho».
O vice-presidente e vereador da Cultura da Câmara Municipal, Eduardo Amaral, explicou isso mesmo: «Porto de Mós sempre teve uma grande tradição com a festa de touros, com as garraiadas, com a passagem dos touros, e não é por acaso que ainda temos algumas localidades que têm o seu nome devido a esta dinâmica», como é o caso de Tourões (freguesia de Porto de Mós), que tem este nome porque «era o local onde as pessoas se colocavam para ver as manadas que vinham de Santarém para as praças de Abiul ou da Nazaré». O autarca acrescenta que algumas instituições «conseguiram estruturar-se e garantir financeiramente a sua construção graças às touradas que se faziam no concelho». Além disso, Porto de Mós «tem pessoas que estiveram ligadas à festa, como cavaleiros, toureiros, até como ganadeiros».

A contestação

Ainda o evento não estava confirmado pela organização das Festas e já na internet surgia uma petição que pedia «à Câmara Municipal de Porto de Mós e à entidade que organiza as Festas de São Pedro» que não o incluísse no programa. Afirmando que a tourada se trata de «um espetáculo bárbaro, cruel e degradante, em tudo contrário aos valores da civilização e do progresso», pedem que «Porto de Mós caminhe no sentido da civilização» e «não faça parte do mapa da barbárie».

Paulo Amado é um dos rostos da contestação no concelho e diz-se contra a tourada por ser um espetáculo «que não faz sentido nos dias de hoje» e que «tem todos os contornos de um espetáculo medieval, cruel, desumano e degradante para quem o pratica e para quem a ele assiste e bate palmas», acrescentando que «aquelas pessoas a quem chamam cavaleiros são, na prática, torturadores profissionais». Não sendo o primeiro signatário da petição, que conta já com mais de mil assinaturas, considera ter tido «alguma influência na sua criação» e «sobretudo na divulgação».

Além de estar contra por convicção pessoal, vê ainda algumas contradições: «Que sentido tem o país criar leis que punem, e muito bem, que uma pessoa agrida um cão ou um pássaro e depois autorize e subsidie um espetáculo que é todo ele feito de tortura e de massacre de vários touros e vários cavalos que estão ali a contragosto, obrigados, massacrados, antes, durante e depois do espetáculo, para gáudio de umas dezenas ou centenas [de pessoas]?», questiona. E aponta ainda uma «contradição maior» a este evento em particular, o facto de no cartaz estar referenciado que este é um espetáculo do Grupo A e, por isso «não aconselhável a menores de 12 anos» e «no mesmo cartaz haver a indicação de que os bilhetes são grátis para crianças até aos 6 anos». Paulo Amado diz estar convicto de que a tourada «é um espetáculo condenado a curto ou médio prazo, porque a mentalidade das pessoas está a mudar» e que, «se por hipótese, o Estado deixasse de subsidiar este espetáculo da maneira que o faz, se as autarquias deixassem de o apoiar da maneira que apoiam, vai acabar por cair por si, porque não tem sustentabilidade». Para o dia da tourada, não há nenhum protesto programado, sendo este feito apenas nas redes sociais, no entanto Paulo Amado afirma que o evento, «pode trazer mais gente às Festas, mas não as enobrece».

Questionada sobre se tem receio que a tourada prejudique as Festas, Ana Matos diz que não, «até pelo contrário», considerando que pode ser «uma mais-valia» porque as corridas de touros que já se fizeram em Porto de Mós «correram sempre muito bem e há sempre público para este tipo de espetáculo». Quanto à contestação que se tem feito sentir, diz apenas que «há que saber respeitar quem gosta e quem não gosta», salientando que «a lei está feita» e contempla este tipo de espetáculo. Opinião corroborada por Eduardo Amaral, que acrescenta que «não é por decreto que se mudam mentalidades» e que a intenção não é «criar uma guerra entre cidadãos», mas sim «encontrar um ponto de equilíbrio» em que cada pessoa possa escolher se quer ou não assistir.

Publicidade

Este espaço pode ser seu.
Publicidade 300px*600px
Half-Page

Primeira Página

Em Destaque