Oito horas diárias, das 9 às 18 horas com uma hora de almoço – muitos portugueses já devem ter ouvido isto quando numa entrevista de emprego perguntaram pelo horário de trabalho. Se pensarmos num horário referência em Portugal, mais coisa, menos coisa, é este que nos vem à mente. Embora a pandemia tenha trazido uma nova realidade a algumas empresas, sendo possível trabalhar em qualquer parte do mundo e a qualquer hora, a verdade é que maior parte dos portugueses mantém este horário padrão. Como toda a regra tem exceção (e neste caso há muitas!), são exemplos disso mesmo que trazemos aqui, hoje.

“[A madrugada] é um horário mais sossegado, sem tanta confusão”

Jorge Oliveira é forneiro numa empresa de produção de telha cerâmica, a Coelho da Silva, onde trabalha «há quase 15 anos». Não foi logo como forneiro que começou, mas soube desde o primeiro momento que ia trabalhar por turnos, «não sabia» era se se «ia adaptar, mas isso acabou por acontecer». Quando entrou para a empresa os turnos que fazia iam no máximo até às 3 horas da manhã mas quando mudou de função, passou a trabalhar mais ainda pela madrugada adentro. «Faço três turnos, um em que entro às 21 horas e trabalho até às 5, outro em que entro às 5 horas e trabalho até às 13 e outro das 13 às 21», explica. Além de trabalhar por turnos, não tendo regularidade horária, em dois turnos trabalha em plena madrugada. É fácil? Jorge Oliveira admite que é tudo uma questão de hábito: «Ao princípio não estava habituado a levantar-me cedo, foi complicado, mas agora já é normal para mim».

Mais do que estar habituado, hoje Jorge Oliveira confessa até que o horário das 5 às 13 horas é o seu preferido, mesmo sendo obrigado a levantar-se às 4h15. «É um horário mais sossegado, não tem tanta confusão de pessoal», frisa o forneiro que diz, até, que se tivesse a possibilidade de escolher, faria só este horário. Apesar de «não sentir cansaço», a parte do descanso e do sono é talvez a parte mais difícil de gerir, mas aí, o facto de trabalhar por turnos ajuda. «Quando estou no horário de entrar às 5 horas, dificilmente consigo dormir mais do que cinco/seis horas, mas depois vou para as tardes e consigo compensar as horas de sono», salienta. Adormecer nem sempre é fácil, ainda para mais quando as rotinas estão ao contrário do restante agregado familiar: «Quando os filhos estão em casa, eu quero dormir e de vez em quando há uma porta que bate, mas agora já estão melhor, no princípio era mais complicado, mas tivemos uma conversa séria», conta, entre risos. Nada disto esmorece Jorge Oliveira que garante que enquanto for possível quer «continuar a trabalhar nesta empresa e com estes horários».

“Quando uns estão descansados, estou eu a começar a trabalhar”

São 8 ou 9 horas da manhã e já temos pão fresco à nossa porta. Para que isso aconteça, é preciso que o padeiro amasse e coza o pão durante a madrugada. Telmo Gregório é testemunho disso mesmo, começando a sua labuta por volta das 22 horas e terminando por volta das 4 horas. Apesar da padaria onde trabalha, na Ribeira de Baixo, ser um negócio de família, mais propriamente dos seus pais, a verdade é que foi devido a circunstâncias inesperadas que começou a ser ele a assumir esta função. «Eu estava a tirar uma licenciatura e já trabalhava em part-time em restaurantes, mas com o falecimento do meu pai tive que assumir este trabalho, desde 2004», conta. Apesar de já trabalhar, tanto ele como a irmã estavam na universidade e com a perda do pai, deixando a mãe sozinha na padaria, sentiram «a fonte de rendimento do agregado familiar» comprometida, mas Telmo Gregório não deixou que isso acontecesse.

O padeiro já sabia o que o esperava, porque cresceu neste contexto mas assume que, ainda assim, «não foi nada fácil» habituar-se a estes horários. «É o deitar bastante tarde, ter horários completamente diferentes dos colegas e amigos que têm um horário dito normal, que às 18 ou 19 horas estão descansados, vão para casa ou vão beber um copo, a essa hora é quando eu tenho que começar a trabalhar», frisa. Depois há ainda a questão das horas de sono insuficientes, apesar de Telmo Gregório afirmar que a qualquer hora que se deite consegue dormir, a sua dificuldade «é encontrar tempo para dormir», isto porque, além do trabalho que faz na padaria, trabalha na restauração. «Na restauração trabalho aos fins de semana, sobretudo em casamentos, em que chego a fazer 16 a 18 horas por dia e durante a semana faço apenas a hora de almoço», explica Telmo Gregório. Então como concilia as duas atividades? «Durante a semana deito-me por volta das 4 horas e levanto-me por volta das 8h30 ou 9 horas, depois vou para o restaurante», explica. A juntar a isto ao sábado ainda é Telmo Gregório que faz a distribuição do pão, sendo que a sua única “folga” da padaria é na noite de sábado para domingo, em que não é cozido pão.

Apesar de assumir que estas são duas atividades cansativas e com horários duros, acredita que a forma «como se encara tudo é que faz a diferença». «Se formos levando isto com calma, acho que conseguimos contornar, há pessoas que não conseguem funcionar se não tiverem o sono regulado e há outras, que é o meu caso, que se dormir duas horas durmo, se dormir cinco, o que já é muito bom, é igual», afirma. Telmo Gregório assume também ter encontrado o equilíbrio perfeito nas duas profissões que atualmente exerce, «dois mundos» com ritmos diferentes: «Tenho a agitação dos restaurantes, depois tenho os momentos na padaria em que estou sozinho», frisando que está adaptado às duas realidades.