Um dia todos vamos estar nos livros de História

2 Julho 2026

Um dia todos vamos estar nos livros de História. Uns fazendo parte de um conjunto, inseridos num “todo”, que lutou contra uma política extrema. Que se revoltou, manifestou, que presenciou um feito. Estaremos nas entrelinhas quando se falarem em descrentes e em sonhadores. Escrever-se-á sobre o que se acreditava agora, e que se veio a revelar tão diferente no futuro. Ou então, estaremos a acertar em cheio. 

Troika, Covid-19, Depressão Kristin, o “início” da Inteligência Artificial, Seleção Portuguesa de Futebol campeã europeia pela primeira vez… nos livros serão palavras, descrições, resumos com datas, política, não será a vida que agora vivemos, mas estaremos lá da forma como escolherem contar-nos. 

Um dia todos vamos estar nos livros de História. Uns fazendo parte de um conjunto, outros sendo protagonistas que mudaram o rumo. A luta das mulheres pela igualdade estará lá, espero que olhada como algo completamente ultrapassado, mas estará lá. E nessa luta, destacar-se-ão alguns que, lutando, lutaram mais. Ou que romperam com um sistema de milénios. 

Ruth Garcês foi a primeira juíza em Portugal. Escusado será dizer que o seu nome está e estará nos livros de história. Nasceu em 1934 em Moçambique e faleceu em Porto de Mós, a 10 de junho de 2006. No dia 29 de junho, feriado municipal, foi homenageada no Tribunal de Porto de Mós, terra onde trabalhou e fixou residência. A iniciativa foi promovida pela juíza de direito, Ana Lídia de Oliveira Cadete, a responsável pelo Juízo Local Criminal de Porto de Mós, e contou com apoio de muitas instituições. De um leque de momentos pensados para prestar um tributo a Ruth Garcês, esteve incluída a inauguração da exposição Retratos de um Tribunal, que estará pelos corredores do piso superior do Tribunal. Esta exposição faz parte de um projeto mais vasto, no âmbito do mestrado em Mediação Intercultural e Intervenção Social que Ana Lídia de Oliveira Cadete está a frequentar. 

Aquilo que é feito num momento, por vezes curto, está carregado de esforços diários, medo, sentimento, emoção… e serão palavras num livro de História. Ruth Garcês merece estar nos livros de História e em exposições. Foi a primeira a criar um caminho novo para as mulheres. Merece que a sua estória seja contada. 

Um dia todos estaremos nos livros de História. Aquilo que vivemos será contado. E se, por vezes, temos a real noção de que fazemos parte de algo maior do que o “nosso mundo”, que somos gotas num oceano enorme, outras vezes podemos pensar na diferença que uma gota num oceano pode fazer. Ruth Garcês foi uma dessas gotas. 

Será que a sua História será contada sempre assim? Fico feliz que, por agora, lhe seja reconhecido esse mérito. Não estarei cá para ver, mas espero que daqui a 100 anos os livros História continuem a fazer jus a Ruth Garcês e a todos nós. Porque, um dia, todos estaremos nos livros de História.