Um restaurante a céu aberto e um pinhal que “não estaremos vivos” para ver com raízes novas

12 Fevereiro 2026

Jéssica Moás de Sá

«Muitas mazelas». A depressão Kristin não deixou ninguém indiferente, mas deixou marcas mais vincadas em alguns. As Grutas de Mira de Aire receberam, num dos dias em que um gerador lhes devolveu essa possibilidade, 41 visitantes, quando estavam previstos mais de 400. Mas, recuemos à manhã de 28 de janeiro onde os vestígios de uma revolta da Mãe Natureza, eram «muitos» pelas Grutas e o seu complexo. «A cobertura do restaurante por e simplesmente voou. Chegámos ali, olhávamos para cima e não estava lá rigorosamente nada», recorda o presidente do conselho de administração, Carlos Alberto Jorge. «Aproveitando lonas das esplanadas que tínhamos por aqui, que também desapareceram e ficaram destruídas, conseguimos improvisar uma cobertura. Andaram aqui até às 22 horas, abalaram encharcados para me deixarem aquilo de forma a minimizar o efeito da chuva daquela noite», conta. Quando diz “andaram” refere-se a todos os que, neste momento, tinham reparações para fazer a nível pessoal, optaram por ajudar esta “casa”. Entre eles estão empresas e parceiros que já trabalham habitualmente com as Grutas e os próprios funcionários. Aliás, foram estes últimos que, «tiveram a preocupação de retirar tudo o que eram máquinas do restaurante que se pudessem danificar» sem recuperação possível. 

«Entretanto, no dia a seguir, fomos comprar uma lona e foi tirar tudo o que estava estragado, desde ferros torcidos, lonas destruídas, etc…», recorda. Na zona dos bungalows, «as árvores partiram» e um sobreiro que estava na propriedade das Grutas «caiu para a propriedade do vizinho e ficou sobre o telhado». «Felizmente os danos foram poucos, apenas quatro ou cinco telhas que se partiram», diz, aliviado. «Tivemos de tirar o sobreiro porque nos danificou a vedação», explica ainda. 

Os primeiros dias pós-Kristin

«No primeiro dia [28] não pudemos trabalhar com o gerador, que dá para todo o complexo, porque como é um gerador complexo tinha lá uns parâmetros que não estavam em conformidade com aquilo que deviam. O técnico que só pôde passar ao fim do dia, também andou a tomar conta do telhado dele, e a partir daí é que voltámos a ter energia. Água tivemos sempre porque temos um furo e três reservatórios de água», contextualiza Carlos Alberto Jorge. A luz voltou, mas as pessoas não apareceram. «Já retomámos a atividade desde dia 29, mas os cancelamentos foram muitos, muitos mesmo, escolas, grupos organizados, tudo foi cancelado. No restaurante, igual, as pessoas não vinham», frisa. 

Quando O Portomosense visitou as instalações das Grutas, uns dias depois da catástrofe, Carlos Alberto Jorge tinha acabado de ter o primeiro contacto com o seu agente de seguros, mas estava certo de que aquilo que era verdade naquele dia, não seria no seguinte. «Eu respondi a um inquérito da Direção Geral de Turismo e Hotelaria sobre os prejuízos há uns dias e já está muito aquém. Nós vamos vendo sempre coisas novas para reparar», sublinha. 

O estrago podia ter sido pior e Carlos Alberto Jorge congratula-se por uma decisão tomada anteriormente. «A maior satisfação foi ter retirado os pinheiros que estavam nos bungalows. Aqui as raízes das árvores estão à superfície porque é uma terra de pedra e uma vez passei por lá e pensei: “se vem uma rabanada de vento mais forte, e com chuva, aquilo cai” e mandei cortar», diz. 

Faz lembrar “quando choveram salamandras e peixes”

Foi a 12 de fevereiro de 1941 que um grande ciclone atingiu Mira de Aire, bem como todo o país, e naquela altura criança, Carlos Alberto Jorge recorda esse como o dia em que «choveram salamandras e peixes-sapo» em Mira de Aire. «Aliás, a casa dos meus pais foi feita com madeira saída ali da mata, uma mata que deixou de ser mata nesse ciclone», conta. E se este evento faz parte da memória do que lhe contam, a depressão Kristin passou a fazer parte da sua própria vivência e, desde que vive, não se lembra de nada assim. «Com 73 anos nunca assisti a uma coisa destas, com esta intensidade nunca assisti», garante. O presidente refere-se não só ao vento, mas também à chuva que há dias não dá tréguas. «Tanto mais que já tivemos que, por duas vezes, colocar uma plataforma no interior da gruta para os turistas poderem passar», refere. Alias, neste momento estão a desenvolver um trabalho «no interior da gruta, e que já estaria concluído se não fossem estas intempéries, para criar uma plataforma no interior da gruta que vai ficar dois metros acima do passadiço atual. Vamos ter um passadiço de verão e um de inverno para quando a água subir», revelou. 

CIBA perdeu “90% das árvores” 

Um cenário desolador, um antes e depois de nos desanimar: foi isso que encontrámos na manhã de 28 de janeiro no Campo Militar de São Jorge (CIBA). Se antes aquele era um pequeno pulmão de Natureza, hoje resta quase nada. «O impacto maior [no CIBA] foi na vegetação, na flora envolvente. Perdemos 90% das árvores que tínhamos e que não são recuperáveis, estão completamente destruídas», afirmou a O Portomosense o diretor da instituição, Tiago Paz. E se as árvores caíram, também o Parque de Arborismo que estas sustentavam, foi abaixo. 

A nível do interior do espaço, o cenário parece não ser tão preocupante. «Ainda estamos a fazer um levantamento, estamos dependentes de respostas e avaliações de empresa, salvo, por exemplo, o nosso gerador que avariou. Mas temos mesmo que esperar pela avaliação técnica porque há coisas, por exemplo o equipamento do ar condicionado que temos na parte superior, as chapas das coberturas que é preciso ver se estão bem», refere o responsável. 

Antes Depois CIBA Jessica Moas de Sa | Jornal O Portomosense

Um dos outros danos já confirmados foi «a cobertura da entrada que rasgou completamente»: «Agora temos que retirar e logo faremos a sua reposição. Não posso ter a cobertura pendurada para garantir o mínimo de segurança e condições aos visitantes». 

«Visitas ao campo vão deixar de ser feitas», pelo menos nos moldes pré-Kristin e tudo isso terá de ser ainda estudado. Já as visitas no interior, por todas as falhas de rede e elétrica que ainda se vão verificando estão também suspensas. «Abriremos assim que tivermos condições. Queremos manter o nível de espetáculo e não posso ter cortes consecutivos de eletricidade enquanto fazemos a projeção do filme, até porque pode incorrer numa avaria dos servidores», frisa Tiago Paz. 

Agora é tempo, volta a reforçar, de «submeter pedidos à seguradora, pedir orçamentos e ver as alternativas para o pinhal que não serão tão brevemente», salienta. «Quando voltarmos a ter pinhal, se é que vamos voltar a ter, já não estaremos cá para ver», diz, com um peso que nos ecoa a todos. «Vamos tentar, pelo menos, pedir um orçamento para a construção de um parque de arborismo», nem que seja recorrendo a elementos artificiais. Naquele local existiam «sobreiros e pinheiros mansos com 100 e 150 anos. O pinhal em si tinha mais de 40 anos, com umas árvores mais jovens». «Neste momento não estamos sequer a partir para a avaliação da reflorestação, vamos atuar mediante as prioridades. Uma vez que tenhamos o terreno limpo, faremos a devida análise se vale a pena replantar, com que tipo de árvores, mas claro que demorará a chegar ao nível do que tínhamos», volta a sublinhar. 

Fotos | DR e Jéssica Moás de Sá

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