Trazer turismo a Porto de Mós foi sempre assumido como um objetivo do atual executivo. Mais turismo é sinónimo de mais dormidas no concelho. Mas que oferta há em Porto de Mós a este nível? O Portomosense falou com proprietários de duas unidades de alojamento, uma bem no centro da vila e outra em Alcaria,uma oferta bem diferente.

Alojamento local é “uma responsabilidade social”

Rui Filipe é o atual gerente do Alojamento Local do Rossio, situado, como o próprio nome indica, junto ao Largo do Rossio, no centro da vila de Porto de Mós. Nem sempre foi este o nome do alojamento, que já passou por várias “formas e feitios”. Muitos ainda o conhecem como Residencial Filipe, um negócio de família, instalado na vila desde os anos 1980, iniciado pelos pais de Rui Filipe. «Começámos com outro tipo de estrutura, com uma aposta mais forte no restaurante e num snack-bar, mas tínhamos já alguns quartos nessa fase embrionária», conta. Este foi «um bebé que foi crescendo», com Rui Filipe sempre a acompanhar os pais no negócio, até porque é formado e atualmente professor na área da Hotelaria e Restauração. O espaço foi sendo alvo de remodelações, até que foi atingida «a classificação turística». No ano 2000 foi feita uma grande obra, que culminou na abertura do bar O Fugas (que, entretanto, já encerrou), nas mesmas instalações e na classificação como “hotel” do espaço.

Há três anos, na altura em que os pais de Rui Filipe faleceram, o atual gerente optou por fechar o espaço para «repensar o projeto», até porque a parte do hotel era um sonho do pai, pelo qual nunca se perdeu «de amores»: «Eu preferia a parte do bar, era algo com que me identificava mais». Em desistir nunca pensou, até porque encara este alojamento em Porto de Mós, o único de momento na vila, como um compromisso. «Na altura não havia mais nenhuma oferta de alojamento na vila, eu funciono como um alojamento de responsabilidade social, porque há a necessidade de ter aqui um espaço em que as pessoas que precisam de pernoitar, possam ter um sítio onde ficar», frisa.
Rui Filipe admite, no entanto, que Porto de Mós tem «há longos anos», um «défice muito grande de turismo» e apesar de afirmar que o atual executivo tem feito «um bom trabalho no sentido» de trazer visitantes ao concelho, continuam a existir muitas dificuldades em os fixar. «Porto de Mós tem um turismo de paraquedista, acidental, a pessoa vem, vê e acha bonito e pára, mas no dia seguinte vai embora. Não vem para aqui fazer férias», explica. Foi também por este motivo que optou por ter um «funcionamento simplificado», desclassificando o espaço como “hotel” e passando a ser considerado “alojamento local”. «Acabo por não ter obrigatoriedade de ter uma receção 24 horas como tinha, há contacto com o cliente, o check-in é presencial, mas não há necessidade de ter um acompanhamento e serviços tão abrangente». No entanto, o proprietário frisa que se cria sempre uma «relação de proximidade com o cliente», e que é mesmo isso que diferencia um alojamento local.

O Alojamento Local do Rossio não serve pequeno almoço, mas tem um espaço onde os hóspedes podem preparar as suas próprias refeições. Rui Filipe, apesar de reconhecer que Porto de Mós tem o turismo de passagem, no seu caso concreto, devido à localização central deste espaço, recebe também muitas pessoas que, por motivos profissionais, ficam durante mais tempo: «Um cliente empresarial, alguém que esteja a trabalhar no centro da vila, um professor», explica, acrescentado que alguns destes hóspedes chegam a alugar um quarto durante semanas ou meses. Para estes casos o espaço onde «podem cozinhar, ver televisão, estar no computador», acaba por ser vantajoso, acredita.
Rui Filipe admite que é um “faz tudo”: «rececionista, camareiro e técnico de manutenção» e todo este trabalho não o demove, mesmo sabendo que não tem lucro suficiente para conseguir «viver apenas disto». O foco está na «responsabilidade social», porque «quem corre por gosto não cansa», sublinha.

Dormir em pleno Parque Natural

Ouve-se passar um carro de hora a hora, mas o som dos pássaros e do vento a bater nas folhas das árvores é constante. Em Alcaria, está a Noz por Cá, uma unidade de turismo rural composta por duas casas antigas, recuperadas, que mantêm os traços rústicos mas sem descurar o conforto da vida moderna. O nome é um trocadilho que «principalmente os estrangeiros [e são muitos os que visitam o espaço] nem sempre percebem»: o espaço tem uma nogueira e por isso o recurso à “Noz”, foneticamente igual a “Nós”. Benvinda Januário e Paulo Santos são, então, os “nós” que estão por lá a receber os hóspedes e que nos guiam nesta visita ao espaço.

«Uma das casas foi herança dos meus pais e a outra resulta de uma troca de um terreno que tínhamos, por este espaço». Perante o «encargo de ruínas», como diz em tom de brincadeira, Benvinda e o seu marido, Mário, entenderam que dali haveria de nascer algo. Uma casa tinha sido recuperada há 20 anos e tinham outra, «paredes meias» com aquela onde vivem e que queriam remodelar. Já tinham as obras praticamente concluídas quando começaram a pensar sobre o que podiam fazer com o espaço. Em Alcaria não havia oferta deste tipo e Benvinda foi percebendo que cada vez mais surgiam pessoas a perguntar se havia casas para alugar. O casal acreditava que sozinho não conseguia levar um projeto novo para a frente e daí o convite a Paulo Santos e esposa. «Isto é muito exigente e intenso, desde que temos a porta aberta e publicidade feita não nos podemos arredar daqui, há que dar assistência. Com dois casais a gerir é mais fácil».

«De início era tudo muito vago, mas chegámos à conclusão que o melhor era criar uma empresa para gerir as casas», explica Paulo Santos. Formado na área de informática e marketing é ele que trata das reservas e da publicidade. Paulo Santos afirma que o Noz Por Cá pretende oferecer «o tipo de serviço que as pessoas querem. Se quiserem conversar, conversamos, se quiserem estar sozinhas, deixamo-las sozinhas». Foi feita também uma aposta nas parcerias com o Centro Hípico de Alcaria, com empresas de aluguer de bicicletas e de serviço de caminhadas. O pequeno-almoço, com produtos locais, faz parte do pacote, e para quem queira almoçar por perto, a unidade recomenda os melhores locais na região. As casas podem ser alugadas por inteiro ou ao quarto, dando para um total de 12 pessoas.

Três anos depois, Benvinda Januário e Paulo Santos acreditam que a aposta «começava a estar ganha», embora a COVID-19 tenha vindo baralhar as coisas: o ano «que ia ser o melhor», acaba por ser praticamente nulo. Maio era sempre o mais forte devido às peregrinações a Fátima e tudo isso a pandemia levou. O Noz por Cá tem dois tipos de hóspedes: «O português que vem para descansar longe da confusão e desligar-se do dia-a-dia» e os estrangeiros que «normalmente têm reservas mais prolongadas». Mas há ainda dois tipos de estrangeiros, «os que estão a percorrer o país e ficam um dia num sítio e outro dia noutro, e os que fazem reservas de vários dias e usam o Noz por Cá como base», explicam. Benvinda destaca a localização privilegiada, que permite conhecer vários pontos: «Um dia vão para o interior, grutas, Fátima, Castelo de Bode, Tomar, no outro para o lado da praia, Porto de Mós, Alcobaça, Nazaré».

Apesar do balanço positivo reconhecem que a taxa de ocupação ainda é baixa. Na opinião de ambos, em Porto de Mós, faltam atrações onde «as pessoas se possam demorar». «A não ser que venham fazer BTT ou andar de cavalo, num dia conseguem ver Porto de Mós e Batalha», frisa Paulo Santos. Alguns dos projetos que a COVID-19 também adiou foram precisamente atividades para atrair visitantes: «Íamos ter uma noite temática de Fernando Pessoa que já estava esgotada», exemplifica. Quando a situação o permitir querem também dinamizar iniciativas ligadas à gastronomia, saúde e bem-estar, com o intuito de atrair clientes diferenciados.