Uma nova rubrica

29 Janeiro 2026

Nesta edição d’o Portomosense estreamos uma rubrica nova: Profissões sem herdeiros. Este é um espaço para todos. Para quem tem nas mãos a mestria do saber-fazer e que nunca teve a possibilidade de partilhar a sua estória. Para quem escolheu uma profissão artesanal, onde máquinas de produção rápida não entram, e onde cada peça ou trabalho são únicos. É para quem já antevê um futuro sem futuro: sem gerações que queiram seguir-lhes as pisadas. É para quem teve no pai, mãe, avô ou avó os grandes instrutores. Mas é também uma rubrica para os que ainda resistem, mesmo que a luta seja desigual – contra grandes empresas com uma linha de produção imparável, mas onde não cabe a personalização, o cuidado em cada pormenor, a atenção ao cliente. 

Esta rubrica não é só para quem acredita ter, em muitos casos, uma profissão sem herdeiros. É também para todos os leitores, dos 8 aos 80. A geração mais antiga que “por aqui” ler as estórias que vamos partilhar, acredito que irá recordar um mundo com menos pressa de ter. Um mundo onde o conhecimento ancestral importava e a qualidade era valorizada. Outros, talvez um pouco mais novos, recordarão os familiares – alguns que infelizmente já partiram – e que “tão bem sabiam fazer”. Os mais novos, esses, talvez seja mais difícil prendê-los por cá, mas se por cá estiverem, garanto-vos que aprenderão muito. Aprenderão que, antes dos computadores, das máquinas várias, dos smartphones ou da Inteligência Artificial, o mundo continuava a ter o que precisava e encontrava as respostas em cada um de nós. Não bastava entrar num único espaço comercial para comprar cinco camisolas, dois pares de sapatilhas e um casaco, mas aqueles sapatos que encomendávamos ao sapateiro eram feitos a pensar em nós. Apenas em nós. 

A primeira edição do Profissões sem herdeiros é com Narciso Cordeiro, ferreiro, que – spoiler alert – faz parte dos que, infelizmente, não acreditam ter quem continue o seu negócio. Por coincidência, e sem que esse fosse o principal foco desse trabalho, também António Vala e João Vala, dois irmãos que em dois concelhos distintos têm ambos uma sapataria, também nos falam do tempo em que “os sapatos eram feitos completamente à mão”. Estes testemunhos, que queremos perpetuar com esta nova rubrica, são a nossa herança para manter vivos estes ofícios. Mesmo que a herança não encontre donos.