É já nesta sexta-feira, dia 1 de abril, que os agricultores vão manifestar-se para exigir mais apoios e melhores condições para este setor. A “convocatória” foi feita pela União dos Agricultores do Distrito de Leiria (UADL), na voz de António Ferraria, no passado dia 20, num encontro realizado na sede da Junta de Freguesia de Serro Ventoso. António Ferraria explicou que a ideia é «fazer um protesto» junto ao mercado da vila de Porto de Mós, para depois seguir para o edifício dos Paços do Concelho, onde pretendem «entregar um documento ao presidente da Câmara, com as reivindicações, para ele enviar depois para o ministro» da tutela. «Podemos pensar que vamos manifestar-nos e que não vale de nada, mas os ministros não gostam que a gente o faça, por algum motivo é», afirmou o também agricultor de Moita do Açor, na freguesia de São Bento.

Os motivos são conhecidos de todos: «O adubo subiu para mais do dobro, os pesticidas igual, o gasóleo está ao preço que se sabe e os agricultores vão produzir e vender – aqueles que conseguem vender – os seus produtos, mas não ganham para a despesa», aponta, acrescentando que «esta situação é insustentável». A manifestação, que acontece em Porto de Mós mas que a UADL pretende repetir «na Batalha, em Pombal e em diversos sítios», serve então para «reclamar direitos, reclamar a sobrevivência da agricultura familiar, não da de latifúndios, é a agriculturas das pessoas que andam aqui na sua vida, têm o seu trator, as suas terras, semeiam os seus produtos…», explicou.

Instigando à participação, António Ferraria lembrou que «a agricultura é um dos setores determinantes da atividade do país». «Nós somos os agricultores, nós é que temos os problemas, nós é que temos de nos queixar. Quem tem que governar é o Governo, não é só querer ir para lá, estar bem instalado e nós, depois, pagamos a fatura. Não pode ser assim. Nós somos o país e o Governo, apesar de ter maioria absoluta, mantém-se no poder só enquanto o povo deixar», frisou.

CNA ao lado dos pequenos e médios agricultores

Pedro Santos, da direção nacional da Confederação Nacional dos Agricultores (CNA), presente no encontro, começou por elevar o papel de António Ferraria, na luta pelos agricultores: «As coisas, de facto, não estão boas, mas se não fossem homens como ele, estariam bem piores. Aquilo que é a agricultura familiar hoje, seria muito diferente do que é, porque mesmo com grandes dificuldades, vamos resistindo e continuando a trabalhar». Depois de frisar que a CNA se encontra «ao lado» dos pequenos e médios agricultores, Pedro Santos lembrou que «saímos de dois anos de pandemia, em que, de um momento para o outro, grande parte da “malta” ficou sem conseguir vender as produções, fecharam os restaurantes, fechou tudo e muitos ficaram com os produtos na mão. Depois começa uma escalada nos custos de produção, aumento dos combustíveis, aumento das rações, aumentos dos adubos, não vem de agora, mas agora está a atingir proporções que são completamente insustentáveis. E para quem já estava mal, leva com estas questões e, a dada altura, não dá. Até onde é que os agricultores, por mais que queiram, conseguem aguentar?», questionou.

A esta escalada de preços junta-se a seca por que o país está a passar e, na opinião de Pedro Santos, começam a «faltar respostas para acudir a tantos problemas». «Nos supermercados, os valores estão a subir, mas nem sempre sobem da mesma maneira para o produtor. De todo o valor gerado na cadeia, os agricultores ficam apenas com 20% na melhor das hipóteses. Quando se diz que, para pagarmos melhor aos agricultores, os preços têm que subir para o consumidor, não é bem assim», afirma. Por isso, para si, as grandes medidas a serem tomadas passam pelo «combate à especulação» e pela «regulação da grande distribuição que opera no mercado e que esmaga, pequenos e médios agricultores», ao ficar com a grande fatia de valor gerado.

Com novos ministros a tomar posse, Pedro Santos salienta que, «independentemente da figura que lá metem, o que importa é mudar de política, e ter uma política verdadeiramente de apoio à agricultura familiar e aos pequenos e médios agricultores». «Isto se querem continuar a ter malta nas aldeias, porque se não, daqui a pouco não temos ninguém. Falam-nos em rejuvenescimento e em manter as pessoas, mas depois quem trabalha e tenta viver da terra não consegue daí tirar sustento, assim venham para cá eles», atira.

O engenheiro disse ainda que os apoios têm de surgir de «medidas simplificadas que façam chegar urgentemente o apoio e o dinheiro aos agricultores» e afirmou que se chegou «a um ponto em que só resta este tipo de ações [manifestações], porque, em termos de diálogo, é infrutífero, eles não ouvem, ou não querem ouvir», concluiu.

Sede da UADL na antiga escola de Serro Ventoso

As instalações da antiga escola primária de Serro Ventoso vão acolher a sede da União dos Agricultores do Distrito de Leiria (UADL). A informação foi avançada pelo presidente da associação, José Alberto Machado, no encontro de agricultores que decorreu naquela freguesia. O dirigente revelou ainda que a intenção da UADL é passar a organizar «uma feira do agricultor», que acontecerá previsivelmente «no final de cada mês», em que «todos os pequenos agricultores podem ir vender os seus produtos». «Futuramente», a associação pretende ainda organizar «uma feira de animais vivos, com um veterinário para passar guias, para que quem compra os possa levar para onde quiser». Sem avançar datas concretas, José Alberto Machado apelou à participação dos agricultores.

Foto | Rita Santos Batista