Consultas médicas realizadas à janela, por telefone ou e-mail, atendimento administrativo efetuado na rua ou através de uma janela, exames e/ou análises entregues no balcão sem a garantia de uma consulta posterior e contactos telefónicos de unidades de saúde que raramente são atendidos. Estas são as principais queixas de vários utentes pertencentes à Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) de Porto de Mós e à Unidade de Saúde Familiar (USF) Novos Horizontes que têm chegado ao nosso jornal.

António Carvalho, de 68 anos, natural do Alqueidão da Serra é uma das pessoas que mais se tem mostrado insatisfeita com o funcionamento atual da extensão de saúde do Alqueidão da Serra. O acender do rastilho para tamanho desagrado foi despoletado no passado 10 de agosto, dia em que tinha uma consulta marcada, cinco meses depois de ter sido observado pela última vez, mas que acabou por não ser feita em formato presencial. Em declarações a O Portomosense, o utente afirma que depois de ter aguardado no banco externo às instalações foi-lhe dito que a consulta apenas iria ser realizada via telefone. Nesse instante, António Carvalho admite que por considerar que deveria ter direito a uma consulta presencial decidiu pedir o livro de reclamações, que lhe foi facultado através da janela lateral das instalações. «Eu tinha coisas para dizer ao médico em relação à última consulta que eram importantes do ponto de vista clínico e para a minha estabilidade emocional», desabafa.

Seis meses: uma espera, por vezes, eterna

Minutos mais tarde, o utente acabaria por ser autorizado a entrar dentro das instalações da extensão de saúde onde, segundo recorda, foi interpelado pelo médico que entretanto tomara conhecimento da situação e que justificou a consulta pelo telefone com o facto de estar a cumprir as regras emanadas da Direção-Geral da Saúde. António Carvalho, não estando de todo satisfeito com os contornos do que estava a acontecer terá dito: «A sua função é ser médico e consultar pessoas, não é ser operador de telefones».

O médico terá garantido que o utente iria ser consultado pelo telefone ainda no mesmo dia, uma consulta que durou «cerca de hora e meia», terminando com o profissional de saúde a solicitar ao utente que se dirigisse à extensão de saúde daí a dias para levantar o documento para nova consulta. António Carvalho que padece de diversos problemas de saúde, alguns há já largos anos, nem queria acreditar quando verificou a data que constava do documento e que mostrou ao O Portomosense visivelmente emocionado: 4 de fevereiro de 2021.

A revolta e consternação perante a situação levaram António Carvalho a fazer um post no Facebook, onde relatou o que tinha vivido. Com essa partilha surgiram diversas mensagens de elogio da atitude que tinha tomado, no entanto o alqueidanense rejeita agradecimentos e lamenta que «as pessoas não tenham força interior para reivindicar os seus direitos».

«Estava-se a instalar um clima em que as pessoas pura e simplesmente eram marginalizadas até de entrar nas instalações», conclui, situação essa que já foi entretanto ultrapassada, com as portas da extensão de saúde a serem abertas dois dias depois, ainda que com limitações, o que na perspetiva de António Carvalho se deveu à sua atitude. «Devemos lutar pelos nossos interesses e repudiar todas as formas de chantagem, faltas de respeito e ser exigentes para com aqueles que estão ao serviço da comunidade local», referiu num post posterior à conversa com O Portomosense.

Consultas por telefone na origem das queixas

«As consultas pelo telefone a pessoas que têm doenças não serão realmente a melhor opção. Se presencialmente às vezes há falhas, quanto mais por telefone», defende Fabiana Gomes, de 39 anos. A utente da USF das Pedreiras dá conta de uma situação que aconteceu com um familiar que, aquando do surgimento de uma «ligeira tosse», decidiu ficar em casa e automedicar-se. A utente terá alegadamente recebido uma chamada da médica, no sentido de saber o que sentia e depois de ouvir que a doente se sentia bem «decidiu dar alta por telefone», conta. «Acho que estas coisas pecam por excesso de zelo. A pessoa até se pode sentir bem mas na realidade não estar e não é através do telefone que isso se vai observar», defende. Porém, diz, existem consultas em que o e-mail é a única alternativa, o que, no seu entender, acarreta uma série de constrangimentos, principalmente para as pessoas mais idosas. «Se pedir à minha mãe para mandar um e-mail ela não manda porque não sabe. Além disso, acho que através da escrita não nos conseguimos expressar tão bem como a falar», constata.

Da UCSP de Porto de Mós surgem relatos idênticos de descontentamento por parte dos utentes que aí possuem a sua ficha médica. Sílvia Fortunato, de 44 anos, é uma dessas pessoas. Natural da freguesia de São Bento mas a residir atualmente na sede de concelho, a utente conta que depois de ter feito análises, provavelmente não terá uma consulta médica como habitual, para a avaliação desses resultados. «São situações um bocadinho chatas. Às vezes até queremos falar de coisas mais íntimas e agora não temos acesso a isso», desabafa.

Apesar de atualmente residir na vila, Sílvia Fortunato conhece bem a realidade de São Bento e também aí o retrato que faz não é dos melhores. «Em São Bento, a rapariga que lá está atende toda a gente à janela e o médico também. Nem sei como fazem isso, certamente a pessoa não deve ser atendida como deve ser», reflete.

“Ur’gente” fala em queixas frequentes

Ouvida pel’O Portomosense, a presidente da Ur’gente – Associação de Utentes de Saúde, Ana Margarida Amado garante que «mesmo com médico de família, as coisas não estão fáceis no Alqueidão da Serra», e dá exemplos das principais queixas apontadas: dificuldade de acesso ao médico de família, o que, segundo justifica, «dificulta o fornecimento de receitas» e escassez de consultas em que pessoas fizeram exames e agora «têm que aguardar até não sei quando para uma consulta de avaliação». «A COVID-19 veio trazer ao de cima algumas dificuldades que já existiam e agravar muitas delas», sublinha.

Sobre a questão em que o atendimento em alguns centros de saúde estava a ser feito à janela, Ana Margarida Amado é perentória: «É pedido à sociedade civil para voltar gradualmente a uma situação de desconfinamento mas depois os serviços públicos não acompanham esse processo». Além disso, considera como sendo «ridícula» a situação em que é sugerido aos utentes que evitem as urgências dos hospitais distritais mas depois «chegam aos centro de saúde e não têm atendimento». Outra das debilidades por si elencada tem a ver com os contactos telefónicos. «É pedido que usem preferencialmente o telefone e depois não é atendido», refere a presidente da Ur’gente, adiantando que tem relatos de várias pessoas que «tentaram ligar dias inteiros» para a UCSP de Porto de Mós e que «ninguém atendia».