Patrícia Santos estava naquele momento de decidir as resoluções de Ano Novo e a inclusão do voluntariado nessa lista de objetivos para o ano seguinte, foi o primeiro passo para que se viesse a juntar ao projeto Brincar de Rua. «Estava à procura de um projeto de voluntariado, queria ajudar a sociedade de alguma forma, mas andava principalmente à procura em Porto de Mós, porque também queria intervir de uma forma local», explica a portomosense, natural de São Bento. Nesta procura, percebeu que estavam abertas as inscrições para este projeto que tem como principal finalidade e como o nome indica: levar as crianças a brincar na rua. «Identifiquei-me com os princípios que o Brincar de Rua oferece às comunidades e às crianças», frisa Patrícia Santos que decidiu inscrever-se.

Depois da inscrição veio uma formação: «A formação dá-nos algumas diretrizes de forma a potenciar os momentos de convívio e de brincadeira para as crianças, a ideia é que os adultos tenham o mínimo de intervenção possível, para que as crianças possam dar largas à imaginação. Depois aprendemos alguns princípios básicos de primeiros socorros, de gestão de algum conflito que possa surgir». Patrícia Santos frisa a importância desta formação para que os pais percebam «que ao confiarem as crianças a este projeto e às guardiãs, estão a integrar e a confiar as suas crianças a um projeto que é certificado e que as pessoas têm o mínimo de treino para poder seguir as normas de segurança, para receber bem as crianças e estar atento à segurança do meio envolvente».
A portomosense recebeu a formação em janeiro e o objetivo era arrancar com o Brincar de Rua em Porto de Mós de forma célere, o que foi inviabilizado com o aparecimento da COVID-19. «Ficou tudo em stand-by, mas depois em julho já havia mais duas inscrições de voluntários para Porto de Mós e foi então possível avançar com a primeira Tribo do Brincar». Neste momento o projeto está a funcionar todas as segundas-feiras, das 19 às 20 horas, na Quinta de Rio Alcaide: «É lá que estamos, pelo menos enquanto a luz solar permitir porque os dias vão ficar mais curtos. A Quinta é um espaço fabuloso que as crianças têm gostado muito e nós também».

Se antes «desta situação da pandemia», brincar tinha «impacto nas crianças», agora ganhou ainda mais importância, acredita Patrícia Santos. «É espetacular ver a imaginação em ponto bruto, a liberdade que eles têm de descobrir, de inventar. Nós vemos no campo as vantagens e os benefícios. É uma aprendizagem também para nós podermos assistir às crianças a brincar, porque realmente estimula de uma forma muito positiva a capacidade de imaginação, de relacionamento, de descoberta de novas capacidades motoras e psíquicas». Patrícia Santos frisa que a cada semana «há qualquer coisa nova», o que também para as guardiãs acaba por ser «inspirador e libertador». Uma coisa é certa, a guardiã não se arrepende da sua resolução: «Não me arrependi nada, nada, estou a adorar».

As novas dinâmicas que a pandemia trouxe

Neste momento o Brincar de Rua está à procura de voluntários em alguns locais, mesmo em tempo de pandemia, o que obrigou a uma reconfiguração do projeto inicial. Quem explica isto mesmo é Francisco Lontro, responsável pela iniciativa. O Brincar de Rua deu lugar às Tribos do Brincar, «um formato criado especificamente para os tempos de COVID-19. A ideia é criar grupos muito pequenos, mais pequenos do que antes que eram de 15 crianças no máximo», especifica. Agora os grupos podem ter no máximo oito crianças e a «ideia é que estas crianças estejam dentro de um núcleo de confiança de quem gere as tribos», ou seja, «a ideia é estabelecer as Tribos do Brincar de acordo com os círculos de confiança dos guardiões, na perspetiva de juntar crianças que já têm algum tipo de contacto juntas, embora possam haver pontes que não sejam diretas», frisa Francisco Lontro. O presidente garante ainda que «todas as normas de segurança e prevenção» estão asseguradas.

As crianças precisam mesmo de brincar?

Francisco Lontro não tem dúvidas da importância de brincar no desenvolvimento das crianças e se existem ensinamentos que a pandemia veio trazer, este foi um deles. As escolas estão adaptadas de acordo com as normas que a Direção-Geral da Saúde (DGS) postulou, e embora o responsável as perceba, quer que o Brincar de Rua seja agora um balão de oxigénio para as crianças que, na escola, estão limitadas. «O que aconteceu em Porto de Mós e noutras localidades do país foi que as pessoas perceberam que realmente as escolas tinham que se organizar desta forma para a proteção dos contágios, mas nós temos que dar alguma qualidade de vida aos nossos miúdos, porque não basta que eles estejam bem fisicamente, é importante que eles estejam bem psicologicamente, mentalmente, socialmente, estejam ativos também nessa perspetiva e o Brincar de Rua vem criar uma bolsa de ar nestes tempos difíceis».

Se há vítimas da COVID-19, as crianças são uma delas. «Se olharmos para aquilo que são as normas da DGS, para todos os circuitos que estão a ser criados nas escolas, as restrições de os miúdos terem que se manter dentro da sala de aula, redução de intervalos, redução de saídas ao espaço exterior, terem condicionamentos de horário de alimentação, não há nenhuma outra área no nosso funcionamento enquanto sociedade portuguesa que seja tão restritivo como nas escolas», salienta Francisco Lontro. As consequências, acredita, virão depois: «Eles estão a crescer, estão a formar-se, estão a desenvolver competências pessoais e sociais e estas medidas podem manter a saúde física, mas temos que começar a contabilizar o resto».

Francisco Lontro deixa o repto para que quem quiser, juntar-se ao programa através do site do Brincar de Rua (www.brincarderua.ludotempo.pt/), mas para quem isso não fizer sentido, o responsável pede que «no mínimo, as pessoas se mentalizem que brincar é importante e que os pais criem rotinas no dia-a-dia dos miúdos de irem ao jardim um bocadinho, pelo menos em família». «Acho que é altura, já tivemos seis meses de experiência, de começar a preservar a saúde mental das crianças e acordar para a necessidade da rua e do espaço de brincadeira livre», conclui.

Pais não têm dúvidas dos benefícios do projeto “Brincar de Rua”

 

Samuel Martins, pai de Emília (4 anos) e Amadeu (2 anos)

«Estas opções são interessantes no sentido em que, por exemplo, a rua da nossa casa é sem saída e é onde as crianças brincam, mas existe uma rua perpendicular onde passam carros em excesso de velocidade. Nós preferimos que eles brinquem com as guardiãs do brincar, porque têm uma segurança acrescida», explica Samuel Martins, enumerando um dos motivos pelos quais colocou a Emília, de 4 anos, no Brincar de Rua. O Amadeu, de 2 anos, não tem idade suficiente para entrar na iniciativa, que só aceita crianças a partir dos 3 anos, mas ainda assim, o pai assume ser o seu «guardião» particular e estimular também nele estes mesmos valores.
Brincar na rua é, para este pai, «explorar tudo o que existe, colher pinhas, aprender novas brincadeiras com outras crianças, analisar os tipos de plantas, é o improviso a cada situação», aproveitando todos os recursos que a rua oferece. Estar fechado numa sala não tem comparação, sendo que na rua as crianças «deixam-se levar pelos estímulos». E porque é que as crianças deixaram de brincar na rua? «É por tudo um pouco, são as novas tecnologias, que fazem com que as crianças e inclusive os pais se percam facilmente dentro de casa, mas são também as normas mais apertadas, já não deixam as crianças sozinhas tanto tempo. No meu tempo, brincávamos na rua até ao jantar, mas agora, por uma questão de segurança, não é assim».
Não foi fácil para os filhos de Samuel Martins lidar com o confinamento: «Em conversas com a minha esposa percebemos que as crianças ficaram como que a estranhar tudo, porque não saíam». O Brincar de Rua tem sido um momento importante na vida de Emília: «O principal é perceber que pede para voltar e que quer que seja segunda-feira rapidamente».

Clara Matos, mãe dos gémeos Mauro e Márcio (7 anos)

Clara Matos, mãe de gémeos, viu no Brincar de Rua uma «oportunidade de [os filhos] terem experiências diferentes ao ar livre». Na sua opinião, as crianças «precisam de espaço, precisam de poder gritar, correr, pegar em coisas da natureza, imaginar brincadeiras e estimular a criatividade», algo muito importante «no seu desenvolvimento». Clara Matos tem sentido que os filhos têm desfrutado desta experiência, em que, de cada vez, «inventam um jogo novo». Apesar das guardiãs estimularem a brincadeira, dão-lhes também muito espaço para se libertarem, explica, que diz que por vezes as crianças «vêm formatadas da creche em que têm de estar sossegados e não sabem largar-se, mas é só nos primeiros cinco minutos, depois vão atrás dos outros».
A mãe acredita que estes meses de confinamento devido à COVID-19 não tiveram impacto «no crescimento» propriamente dito dos filhos, mas que lhes causou um sentimento «de medo»: «Tinham medo de ir à rua porque estava lá a COVID-19, que era uma coisa abstrata, não tinham percebido o que podiam fazer ou não». A «falta dos colegas de escola» também era evidente, frisa Clara Matos.
A segunda-feira é agora, também, no caso destes irmãos, um dia especial. «Estão sempre ansiosas para continuar os mesmos jogos, mas depois chegam lá e acabam por jogar outros diferentes, estão sempre a inventar», explica. A mãe continuará a levar os filhos, mesmo que agora o tempo de chuva esteja para chegar: «Vamos ver qual é o espaço que vão conseguir quando começar a chover, mas vou continuar a levá-los, os garotos também têm que aprender a brincar mesmo quando está a chover».