Segunda-feira, 13 de janeiro. O relógio marca as 11 horas quando ao volante do Vamós, Paulo Eduardo, motorista há 21 anos de pesados de passageiros, se prepara para arrancar da paragem junto ao tribunal em Porto de Mós e, assim, dar início ao percurso da linha vermelha. Nesse local, ninguém espera a sua vez de entrar, um cenário que permanecerá igual durante todo o percurso até São Jorge.

O Vamós, o novo veículo da rede de transportes públicos urbanos de Porto de Mós, entrou em funcionamento há precisamente três meses, através de uma parceria entre o Município e a Rodoviária do Lis. Findo este período, O Portomosense procurou saber qual o impacto que este tem tido na vida dos seus utilizadores e ainda o testemunho de duas pessoas que, de forma intercalada, o conduzem diariamente. Partindo desse objetivo, nada melhor do que “vestir” o papel de passageiro e viajar através dos circuitos disponíveis (linha vermelha e roxa).

Natural de Alvados, Paulo Eduardo, de 50 anos, conduz o Vamós desde «meados de novembro». Desde que começou a sua carreira profissional que trabalha na Rodoviária do Lis. «Nasci e fui criado na aldeia. Sempre gostei de um ambiente mais sossegado», conta. O encanto pelo mundo rural e pela atmosfera que aí se respira, assim como, a «curiosidade» em ver o que é que «o serviço urbano ia dar no concelho» levou a que não tivesse dúvidas no momento em que lhe foi proposto começar a conduzir o Vamós.

«Isto é muito bom porque atualmente todas as casas têm carro, mas nem sempre os filhos têm disponibilidade para ir com os pais aqui e acolá», refere. Com a entrada em funcionamento desta rede de transportes urbanos, Paulo Eduardo afirma que já há pessoas, que apesar de serem em número reduzido, utilizam este serviço para as mais diversas finalidades: «Há uma senhora, com um familiar no lar da Cruz da Légua, que desde que tomou conhecimento já tem andado várias vezes», conta.

“Esta é uma solução que Porto de Mós não tinha”

É o caso de Carlos Menezes, de 81 anos, que há cerca de «um mês e picos» vê no Vamós uma alternativa fiável para se conseguir deslocar a um supermercado em São Jorge. É precisamente junto à paragem de lá que se apresenta com o objetivo de regressar a Porto de Mós. «Eu venho e vou sozinho. Antes de isto existir, estava dependente e tinha que pedir transporte a uma pessoa ou sobrecarregar a minha mulher», desabafa.

Natural de Marvila mas a residir há 42 anos em Porto de Mós, Carlos Menezes considera que este novo serviço merece ser explorado: «Esta é uma solução que Porto de Mós não tinha e que veio solucionar o problema dos portomosenses», diz. Contudo, deixa algumas criticas à população que ainda a desconhece: «É uma tristeza as pessoas dizerem: “Eu até ia mas não tenho transporte” e eu digo: Agora já temos». Mas os comentários negativos não se restringem apenas ao povo: «Está a ser mal aproveitado pela população porque talvez não lhe tenha sido dito como é que funciona», sublinha.

Para Carlos Menezes, com graves limitações em termos de visão, outro dos problemas que aponta é a dificuldade na leitura dos horários: «É difícil distinguir o roxo e o vermelho porque são cores muitos idênticas», confessa. Sobre o preço do bilhete, interroga-se: «70 cêntimos? Até dá para rir [de tão barato que é]!». Apesar de saber que o serviço ainda «é experimental» considera que o trajeto se devia «alargar às serras, como Serro Ventoso e Arrimal».

Quem partilha da mesma opinião é Isaura Vala, de 57 anos, natural da Fonte do Oleiro. «Acho que o Vamós deveria ir um bocadinho mais além, porque não somos só nós que precisamos, os da serra também», argumenta. Na sua perspetiva, esta foi das «melhores medidas» que a Câmara implementou pois como não possui carta de condução, anteriormente, tinha que estar a «empatar o marido ou os filhos». Sobre o custo associado ao bilhete, é perentória: «Se aumentar também não me importo, sempre é mais barato que irmos de táxi!», atira, entre risos.

Outro dia, outro circuito mas o cenário repete-se

Quarta-feira, 15 de janeiro. Desta vez, o relógio marca as 14 horas quando Rita Braizinha, de 30 anos, motorista da Rodoviária do Lis, se prepara para dar início à «volta da tarde» junto à paragem do tribunal, o percurso da linha roxa. Mais uma vez o cenário repete-se, somos os únicos a aguardar o autocarro. O cenário, de veículo vazio, manter-se-á durante todo o percurso, nas 13 paragens que separam o início e o fim deste circuito, até à chegada a São Jorge.

Há três anos que Rita Braizinha é motorista de pesados de passageiros e desde outubro que conduz ao volante do Vamós. Para trás, ficaram sete anos de dedicação ao Exército Português em que já transportava entre 23 a 27 pessoas mas a ambição de «conduzir uma coisa maior» levou-a a experimentar conduzir um «carro de 60 lugares».

Natural de Porto de Mós, vai coinciliando a condução do Vamós com o transporte de estudantes e com carreiras para outros destinos. Já teve a oportunidade de conduzir também o Mobilis, o veículo de transportes urbanos de Leiria. Desse tempo, recorda: «Era uma aventura todos os dias, havia momentos que quase nem se respirava». Apesar de confessar que «estranhou um bocadinho» quando começou a conduzir o Vamós, ressalva o facto de ainda ser um serviço «novo».

Utentes falam em “extensão das paragens”

O contacto quase diário com os passageiros do Vamós, leva Rita Braizinha a afirmar que as pessoas, principalmente as mais velhas, estão «contentes» apesar de sentir que ainda «não estão muito bem informadas». No seu entender, a «zona do mercado, o centro de saúde e as piscinas municipais» são os locais mais procurados para «situações pontuais». Em contrapartida, confidencia que na zona industrial de Porto de Mós e a Unidade de Cuidados Continuados de Porto de Mós e das Pedreiras «nunca entrou ninguém».

Na sua opinião, uma boa solução para essas paragens seria transformá-las e aí implementar o “transporte a pedido” que consiste em o utente acionar o serviço através de uma chamada telefónica. A motorista defende que com entrada em vigor dessa medida, o circuito do Vamós devia «abrir mais o leque» a locais onde a «população é maior», e que os utentes procuram muito, como é o caso da freguesia da Calvaria de Cima e do Alqueidão da Serra.

É já na volta de regresso, junto ao Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA) que Rita Braizinha “apanha” duas passageiras, as únicas de todo o percurso. Jéssica Dias e Mariana Silva, de 17 e 18 anos respetivamente, saíram momentos antes de outro autocarro vindo de Fátima, onde estão a estudar. Jéssica Dias confessa que como nem ela nem a avó têm carta de condução, foi apenas durante as férias que começou a ver no Vamós uma boa opção. Realça, no entanto, que se «estendessem as paragens, dava mais jeito».

A jovem recorda os tempos antes de o Vamós entrar em funcionamento: «Tínhamos que nos limitar aos autocarros da Rodoviária do Lis que não são muitos e o preço também não é propriamente acessível», confessa. Mariana Silva partilha do mesmo ponto de vista da colega: «Dá muito jeito, senão não tinha como vir para casa», desabafa.