Numa altura em que muito se fala em economia circular – um conceito em que a redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia é o foco –, muitos podem também ser os exemplos de implementação dessa lógica. As vendas de garagem/bagageira, os mercados de velharias ou simplesmente de produtos em segunda mão estão a crescer no país e também no concelho e são um desses exemplos. Enquanto algumas vendas estão limitadas a um determinado tipo de vendedores certificados, as vendas de garagem e bagageira são de todos e para todos.

Uma das associações que, este ano, já dinamizou dois Mercados da Bagageira e Produtos Locais foi o Movimento Mira-Minde e o presidente, Miguel Tristão, explicou-nos o porquê da iniciativa. «A nossa associação tem como objetivo trabalhar para mudar o paradigma das coisas e fazer a transição para modelos de economia circular está no topo da agenda», adianta. Além disso, o grupo quer trabalhar «na mudança de comportamentos» e, por isso, este mercado surgiu «como uma ideia gira para concretizar» para que as pessoas percebam a importância da valorização dos produtos que têm em casa. Apesar da adesão ter sido pouco significativa, o responsável frisa que “Roma e Pavia não se fizeram num dia” e por isso a mensagem «vai passando» pouco a pouco. «Há que continuar a insistir», salienta.

Os mercados foram abertos a todos e apareceram produtos de todos os tipos: «Muita roupa, utensílios, ferramentas, “bugigangas”, coisas do “arco da velha” às vezes». A ideia do Movimento Mira-Minde é alargar esta mensagem de reutilização/sustentabilidade a outras ideias, «como workshops de comida local, com alimentos que sejam produzidos na terra, iniciativas de quilómetro zero». «Existe toda uma temática que tem de ser trabalhada e continuada para que, daqui a uns anos, isto já seja uma coisa normal», refere.

Um dos pontos positivos destes mercados é que conseguiram juntar «várias faixas etárias, com jovens a partir dos 15 anos». «Tivemos grupos engraçados e a ideia é este não ser apenas um espaço de trocas de negócio, mas também de socialização, onde as pessoas falam um bocadinho sobre as peças que têm, como lhes chegaram às mãos, cada vendedor é um mundo e cada comprador é um mundo», considera.

“Faziam-se vendas de garagem todos os sábados”

Maria Odete Trovão dinamizou vendas de garagem em dois fins de semana de outubro na sua casa. Roupa, loiça, acessórios, plantas, candeeiros, eletrodomésticos, a lista de produtos que tinha à disposição podia estender-se por mais umas linhas. Inicialmente a sua ideia era que o dinheiro angariado fosse canalizado para uma associação de apoio a crianças, mas acabou «por oferecer tanta coisa» que o lucro que conseguiu foi pouco. «Dei muita coisa, principalmente para as crianças. Como tive uma loja, tenho muitas coisas novas e em segunda mão e vendo a preços simbólicos, a dois ou três euros, que para algumas pessoas é uma grande ajuda», refere. Esta foi a primeira vez que fez uma venda de garagem em Portugal (viveu no Canadá) e considera que «é uma excelente ideia» a replicar: «Fazer, por exemplo, uma vez por mês, em que se juntava a rua toda, em vez de deitarem as coisas para o lixo, porque muitas vezes as pessoas com mais necessidades vão para lá escolher as coisas, assim vinham às vendas e o que precisassem, levavam», sugere.

«Vim de um país em que fazíamos muito isto, quase todos os sábados tínhamos vendas destas, as pessoas punham as coisas mesmo na rua que ficava cheia», explica, apontando esta familiarização com o conceito como razão para o ter agora colocado em prática. Em Portugal não está mais enraizado porquê? «Talvez as pessoas tenham vergonha. Eu não tenho, não são coisas roubadas, são para ajudar as outras pessoas e dar uma nova vida a coisas que já não quero ou não gosto», sublinha. «Há tanta gente a passar fome, sem roupas e nós temos demais», conclui.

GR Corredoura promove iniciativa de vendas (e não só) a 1 de dezembro

BAZAR’ecreativo – assim se vai chamar o evento promovido pelo Grupo Recreativo da Corredoura (GRC) – no feriado de 1 de dezembro na sede da associação, entre as 10 e as 18 horas. «A sede vai abrir portas a todas as pessoas singulares que tenham pequenos negócios ou queiram “despachar” artigos novos ou usados que tenham e que já não lhes tenha utilidade», explicou o presidente do clube, João Alves. A ideia é aliarem-se a um «conceito moderno» para dar «uma segunda vida aos produtos». «Temos ao longo dos anos fomentado a importância da conservação e reutilização de tudo o que nos rodeia e queremos incutir nos mais novos o sentimento de responsabilidade de reaproveitar, evitando o desperdício e dando oportunidade a outras pessoas de comprar por baixo custo», sublinha. O presidente acredita que ainda há um certo «estigma» em relação ao que não é novo e esta é uma forma de o quebrar. É também, considera, uma forma das famílias aproveitarem para «realizar algum dinheiro e comprar posteriormente o que lhes faça falta».

O clube acredita ainda que esta é uma forma de se aproximar das pessoas: «Tudo o que seja trazer pessoas, criar dinamismo e colecionar memórias é vital para qualquer associação». Para atrair o público, «haverá um momento de convívio e confraternização com filhoses e café da avó» e um «espaço para as crianças poderem brincar»: «Este é o ponto alto do evento, poder trazer os mais pequenos, para que possam criar memórias e para que não deixem que no futuro o associativismo se extinga». Quanto ao BAZAR’ecreativo, «todos os vendedores terão o mesmo espaço e podem utilizá-lo da forma que acharem mais conveniente», explica João Alves. Será, por isso, necessária uma inscrição «porque o espaço é limitado». O clube está ainda a «estudar a possibilidade de convidar alguns produtores da aldeia para exporem os seus produtos regionais».

Fotos | Catarina Correia Martins e Jéssica Moás de Sá