Vidas em suspenso

by | 30 Out 2020

Para muitos, o ano vinte-vinte seria o ano das grandes conquistas. As expectativas eram altas, mas um vírus vindo do outro lado do globo havia de transtornar por completo as rotinas e as nossas vidas acabaram por ficar em suspenso e assim têm estado, há demasiado tempo. Neste período, vimos uma grande parte dos nossos sonhos serem destronados pelo chamado “inimigo invisível”. Muitos são os aniversários que têm ficado por festejar, assistimos ao cancelamento de inúmeros eventos e celebrámos a Páscoa de uma forma que nunca pensámos ser possível. E a tradição portuguesa do “Dia do Bolinho” ou do “Pão por Deus”, que se cumpre no dia 1 de novembro, Dia de Todos os Santos, é só mais uma para se juntar ao rol de momentos que este ano não vão acontecer da forma como sempre os conhecemos. Apesar da tradição já não ser o que era e da tendência mostrar que tenderá a desaparecer, a verdade é que ainda existe quem a queira cumprir.

Ano após ano, na manhã do Dia de Todos os Santos, centenas de crianças, movidas por uma grande dose de entusiasmo, saem de casa de saco de pano na mão, para ir bater às portas da vizinhança, com o objetivo de pedir o “Pão por Deus”: “Ó tia, dá bolinho?”, “Bolinhos em louvor de todos os santinhos”. Não fosse a pandemia e por esta altura, já estariam com borboletas na barriga despoletadas pela curiosidade de saber quais as oferendas que poderiam estar do lado de lá da porta. Apesar da tradição já estar enraizada na memória de muitas crianças, para outras este seria o primeiro ano em que teriam essa oportunidade. No entanto, este ano, face à atual situação epidemiológica e tendo em conta as características do “Dia do Bolinho”, não irá acontecer nos moldes de sempre. Por isso, o Município de Porto de Mós, aconselhou «a não concentração de pessoas na via pública» nesse dia de forma a evitar um aumento da disseminação da COVID-19. Apesar de não existir proibição, o tempo é de contenção e a probabilidade é de que os pais de muitas crianças optem por decidir mantê-las em casa.

Além do vírus já ter ceifado milhares de vidas, parece que teima também em acabar com as tradições, no entanto, a minha esperança é de que o “inimigo invisível” não leve a sua avante e que para o ano, os sacos das milhares de crianças que em 2020, por culpa das circunstâncias, ficaram em casa, se encham de guloseimas. E que a 1 de novembro de 2021, os familiares dessas crianças se sentem à sua beira para contar o número de doces arrecadados e, quase como que numa nostalgia, recordem “o ano mau” que finalmente se extinguiu. Seria um bom sinal.