Celebrou-se recentemente aquilo a que, na Igreja Católica, se chama de Tríduo Pascal. Nesta época, as celebrações começam na quinta-feira e terminam no domingo. Mesmo para quem não liga à religião, este é, por norma, um tempo de reunião da família, com mais ou menos tradições, um pouco comparado ao Natal. Este ano, por força da pandemia e do estado de emergência decretado, foram muitas as pessoas que não puderam cumprir as tradições ou que as adaptaram às suas novas realidades.

Vítor Barreto é de Coimbra, mas há pouco mais de um ano que mora no concelho de Porto de Mós. As suas recordações da Páscoa levam-no a um outro local do país, Tondela, no distrito de Viseu, onde é costume reunir-se com a família materna. «Quando era miúdo passava as férias da Páscoa lá», mas agora, mesmo adulto, continua a ser «um momento mais familiar». Ainda que tenham «sempre outro tipo de atividades, como o padre ir visitar as casas todas [visita pascal]», ou «a queima do Judas» na localidade, em que «constroem um boneco e depois queimam», este tempo é «acima de tudo pautado pelos almoços e pelos jantares em família». «Somos muitos à mesa. Há primos fora de Portugal e este é um momento de confraternização, de juntar este lado da família», afirma.

Este ano, a Páscoa foi «definitivamente em casa», passada apenas com a namorada, «no sofá a ver filmes», mantendo-se ocupado, algo que diz que é o que tem tentado fazer ultimamente: «Como costumo ser uma pessoa muito ativa, acordo às 6h10 da manhã e chego a casa, muitas vezes, às 23 horas, agora, estar confinado a quatro paredes é como prender o pássaro», brinca. No Domingo de Páscoa não faltaram as chamadas e videochamadas com a família, e Vítor Barreto garante que «o sentimento é igual», «o facto de não ter a presença [física] deles é que, obviamente, é diferente».

No almoço, aquilo de que mais sentiu falta foram os doces, diz que gosta de «arroz doce, amêndoas e aqueles ovos de chocolate grandes», algo que não teve, uma vez que a cozinha não é muito a sua “praia”, refere.

Separados para se protegerem

Para Patrícia Matos, da Mendiga, a Páscoa tem um simbolismo mais religioso que faz com que este tempo seja marcado por várias celebrações em que costuma participar, o Domingo de Ramos, o Lava Pés ou a Via Sacra. «No Domingo de Páscoa, ia-se à missa, depois a família reunia-se toda e almoçávamos em família, havia a visita pascal, e por ali andávamos todo o resto do dia», conta, acrescentando que é também habitual a visita dos afilhados. «Tudo isso, este ano, deu lugar a outras coisas. Por exemplo, a missa foi assistida na televisão ou nas redes sociais, como tem sido ultimamente. O tradicional almoço e dia em família não se realizou, porque há pessoas que já estão há algum tempo em casa, mas outras continuam a trabalhar, nomeadamente com o público», revela Patrícia Matos. Por isso, o dia foi passado em casa, com o marido, e Patrícia Matos garantiu que havia amêndoas e outros «docinhos, para não ser um dia normal». «Ultimamente temos andado quase sempre o mais práticos possível, neste dia vesti uma “roupinha de domingo”, porque era um dia especial, para não ser um dia demasiado banal», conta.

Patrícia Matos afirma que «é certo que temos muitas saudades uns dos outros, mas vai-se mantendo o contacto via telefone, videochamadas, redes sociais», pois «temos que ser responsáveis e ter consciência»: «Isto não acontece só aos outros e não é como algumas pessoas dizem que “isto aqui é um cantinho, geralmente o vírus só aparece em grandes centros”, não podemos pensar assim», reitera.