São mãe e filha e ambas não têm carta de condução. Maria de Jesus Rufino e Cláudia Rufino de 56 e 40 anos, respetivamente, admitem que conseguiram manter-se sem carta e carro próprio, devido ao apoio familiar que sempre esteve presente. A pergunta que lhes fizemos foi de que forma esta opção tem condicionado as suas vidas e porque é que tirar a carta nunca esteve nos seus planos.
Maria de Jesus, mais conhecida por “Juju”, tem resposta pronta: «Nunca tirei a carta porque sempre tive o meu marido, ele trabalhou sempre em casa e conseguia levar-me onde fosse preciso». Nunca chegou sequer a estar inscrita numa escola de condução, porque de facto também nunca sentiu que «tivesse perdido uma oportunidade» profissional ou pessoal. Trabalhou 22 anos em fábricas e o marido esteve disponível a 100% para a levar todos os dias ao trabalho, sem nunca lhe «cobrar» isso, garante. Esteve depois 10 anos sem trabalhar devido a problemas de saúde e voltou há cerca de três meses a abraçar um desafio profissional. O marido, que trabalha como caseiro de uma propriedade onde vive, continua a ser o seu “taxista”.

Nas questões mais lúdicas, como ir ao cabeleireiro ou ir às compras, admite ter-se sentido desconfortável em alguns casos, por saber que o marido «tinha que interromper» o seu trabalho para a transportar. Mas volta a frisar que o marido sempre esteve lá para a «auxiliar», também porque o «trabalho dele sempre permitiu». Maria de Jesus admite até que poderia ter sido «benéfico» para si se o marido tivesse um trabalho que o impedisse de lhe dar boleia: «Assim seria obrigada a tirar a carta».

Não sente «arrependimento» por nunca ter tirado a carta. No entanto, não nega que «é muito importante para a independência» de qualquer pessoa e tem pena que a filha lhe tenha seguido as pisadas. Dos familiares, colegas e vizinhos recebe muitas vezes incentivos para tirar a carta e embora já lhe pareça difícil «com esta idade» que isso aconteça, não descarta totalmente a opção: «Nunca se sabe».

Tal mãe, tal filha

No caso da filha, Cláudia Rufino, foi o «medo» o principal motivo para nunca ter tirado a carta. Não sabe bem qual é a origem deste medo, mas acredita que pode estar relacionado com um atropelamento que sofreu aos 10 anos, que não lhe trouxe, no entanto, grandes mazelas. Também no caso da sucessora, o suporte familiar foi preponderante para que se mantivesse nesta situação: «Trabalhei muitos anos no mesmo local da minha mãe e como o meu pai a levava a ela, levava-me a mim também». Já depois de casada, continuou a ser o pai o seu principal transporte.

Cláudia Rufino tem uma resposta diferente da mãe, quando questionada se deixou oportunidades escapar. «Eu estive um ano no estrangeiro, em França, e um dos motivos que me levou a não arranjar trabalho e a voltar [para Portugal] foi não ter transporte próprio», conta. Cá, a ironia do destino, tem permitido ter «sempre um familiar» que trabalha com Cláudia e que a pode transportar, mas está a chegar a um ponto em que se sente «cansada de estar dependente» de outros e de ter que estar sempre a «pedir favores». «Estou a pensar seriamente em tirar a carta, fica a promessa», afirma.

Quem ficaria muito contente se esta decisão de Cláudia fosse para a frente era o seu filho, de 19 anos, e que agora é também uma das suas boleias permanentes. Não há vez nenhuma que passe com a mãe ao lado de uma escola de condução que não diga: «Vamos agora pôr os papéis para te inscreveres». A mãe vai respondendo que a hora ainda não chegou, mas ultimamente sente que se pode estar a aproximar. «O meu marido atualmente está no estrangeiro. O meu filho tem 19 anos, qualquer dia sai de casa, e depois?», questiona-se Cláudia Rufino. O futuro dependerá apenas de si, mas a promessa fica feita: «Vou tentar seriamente deixar o medo de lado».