«Fomos forçados ao confinamento no domicílio e as saídas tornaram-se insuportáveis com medo de nos infetarmos. Perdem-se os que mais amamos, afundam-se planos, reajustam-se hábitos e rotinas, mas ficam marcas irreparáveis em grande parte dos casos», foi assim que Clarisse Louro, presidente da Assembleia Municipal de Porto de Mós, no papel de moderadora, deu início ao webinar, promovido pelo Município, que visava discutir “o impacto da pandemia sobre a saúde mental das populações”.

Todos os oradores concordaram que se vive «uma situação excecional» com repercussões no presente e sobretudo no futuro. Telma Cruz, como anfitriã e vereadora da Educação, começou por lançar a discussão sobre a falta de mecanismos para combater estas consequências. Para isso, refletiu sobre um estudo do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge que mostrou que «são as mulheres e os jovens adultos os que mais apresentam sintomas de sofrimento psicológico de moderado a grave». Em relação «à situação face ao trabalho e ao rendimento, os que apresentam os rendimentos mais baixos e os que estão em situação de desemprego são quem mais reporta sintomas de depressão moderada a grave». O estudo diz também que, entre os profissionais de saúde, «são aqueles que estão a tratar doentes COVID-19, os mais afetados pelo sofrimento psicológico e ansiedade». Nesta investigação são depois apontadas algumas recomendações, e é aqui, acredita a vereadora, que começa o primeiro grande problema. Uma das recomendações é «a necessidade de reforçar os serviços de saúde de cuidados primários», e neste ponto, Telma Cruz expressa preocupações quanto à situação no concelho: «Temos uma Unidade de Cuidados na Comunidade constituída por enfermeiros (uma das quais de saúde mental), psicólogo e assistente social. Neste momento, quer o psicólogo, quer a assistente social estão a dar o apoio aos ACES Pinhal Litoral na rede de contactos COVID-19, retirando assim à nossa população o serviço». Telma Cruz lembrou ainda que nos centros de saúde estão a ser retirados recursos humanos, dando o exemplo de Mira de Aire, onde «em em pleno auge da pandemia, permitiram a mobilidade de uma médica de família». É a partir destes e outros pontos, que a vereadora lançou a questão: «Como se pode dar resposta às pessoas nestas condições?».

Problemas mentais (ainda) são motivo de vergonha

Um dos aspetos mencionados neste webinar foi o facto dos problemas de saúde mental serem ainda um tabu na sociedade. Ter vergonha de assumir que não se está bem é, em si, uma abertura para que estes problemas floresçam. O psiquiatra Pedro Morgado e também professor da Escola de Medicina da Universidade do Minho, diz que a vergonha está relacionada com a complexidade deste tipo de doenças: «São doenças do cérebro que têm uma manifestação no comportamento, emoções, relacionamentos e que afetam sistemas muito mais complexos relacionados com a identidade e por isso são doenças acerca das quais demoramos mais tempo a construir conhecimento, social e científico».

Apesar de ser ainda um problema difícil de escrutinar, a verdade é que assim que começou a pandemia começaram a ser feitos estudos sobre as suas consequências. Como já foi referido, os jovens, ao contrário do que «se pensava», as mulheres e os profissionais de saúde estão entre os que apresentam «maior índice de sofrimento». Para isto contribuem, entre outros fatores, «as consequências sociais e económicas do confinamento, os recursos que estão a ser colocados em combate [deixando outros serviços limitados], o aumento do desemprego, o medo e a incerteza gerados pela pandemia». Mas por que é que são estes os setores mais afetados? No caso dos jovens, Francisco Sampaio, professor na Escola de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa e presidente da Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica da Ordem dos Enfermeiros, diz que «o resultado foi surpreendente, mas pode ter que ver com o facto de estarem numa idade de configuração, de construção da sua vida, no panorama afetivo, no estabelecimento de ligações com os pares. Uma pessoa adulta, casada e com uma vida estável tem um fator de estabilidade muito diferente de jovens que estão numa fase inicial da sua vida» realçou.
Uma das conclusões que também surpreendeu os investigadores foi o facto dos idosos não estarem entre os mais afetados. «É um dado muito curioso, se bem que tenho dúvidas porque recolhemos dados online e por isso chegámos apenas aos que usam a tecnologia, têm maiores níveis de alfabetização e não aos analfabetos ou com pouca escolaridade, dos meios rurais», referiu Francisco Sampaio. Cláudio Laureano, psiquiatra e diretor do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Leiria, também acredita que é prematuro avaliar as consequências nos idosos: «O confinamento traz uma enorme redução da atividade física e da estimulação cognitiva e isso vai aumentar a progressão do declínio cognitivo».

Como combater?

Todos os especialistas concordaram que há respostas do SNS que não estão a ser dadas. «Precisamos de mais profissionais, que os serviços locais de psiquiatria e saúde mental tenham melhores condições para servir a população, com mais psicólogos e psiquiatras e em melhores instalações», frisou Pedro Morgado. A escassez de recursos é uma realidade também no distrito, revela Cláudio Laureano: «Na psiquiatria de Leiria, que serve uma população de 400 mil habitantes, temos dois psicólogos, um número completamente irrisório». Pedro Morgado acredita que os apoios sociais são preponderantes: «Se queremos prevenir doença psiquiátrica, este é o tempo de apostar em apoios sociais porque deixar as pessoas sozinhas e vulneráveis, sem emprego, sem saber como pagar as contas e sem apoios, terá muitas consequências».

Mas se há responsabilidade governamental, há também «responsabilidade individual», uma delas é evitar a desinformação. «O apelo que lanço é que tenham cuidado na procura da informação, tanto na quantidade como na qualidade. Cinjam a procura ao mínimo indispensável e procurem informação com qualidade, que não é sinónimo de informação numérica», afirma Francisco Sampaio. «Manter as relações sociais, praticar atividade física, cuidar da alimentação», são também algumas das recomendações de Pedro Morgado.