Com os dias a serem «todos iguais», por causa da pandemia, Rita Rosa, psicomotricista há 16 anos no Centro de Reabilitação e Integração de Fátima (CRIF) rapidamente percebeu que os 120 utentes da instituição que, apoia crianças e adultos com deficiência e doença mentais, estavam a entrar numa «espiral de desânimo». Apesar de alguns utentes, embora poucos, terem uma vida social «muito ativa», para a maioria, que vive «bastante isolada» as poucas experiências sociais que tinham ficaram reduzidas ao CRIF. «A única experiência que têm é vir à instituição e quando a pandemia surgiu, isso passou a ter um peso muito maior», explica. De forma, a quebrar esse estado emocional e combater o isolamento social, Rita e a sua equipa decidiram criar o projeto Zoomas-me uma história? que veio «preencher o espaço» vazio deixado pelo facto de os voluntários que colaboram com a instituição estarem impedidos de fazer as habituais visitas semanais.

Com esta nova iniciativa os voluntários voltam a “entrar” no CRIF, para cantar, tocar, contar uma história, falar de futebol ou até partilhar aspetos da sua vida, mas agora através de uma chamada via Zoom para interagirem com os utentes, 12 dos quais de Porto de Mós.

O projeto foi lançado no Facebook do CRIF a 11 de janeiro e desde então deu-se um «boom gigante» de pessoas que manifestaram interesse em participar no projeto e que surgiram de todo o país (ilhas incluídas), e, inclusivamente, do estrangeiro, desde o Luxemburgo à Alemanha e ao Brasil. «Alguns não sabem cantar, mas têm tempo para conhecer os nossos utentes e isso para mim é fantástico», confessa a técnica, com emoção. Se por um lado o projeto vem «beneficiar muito» a instituição, Rita Rosa não tem dúvidas de que os voluntários também saem enriquecidos desta experiência, como é o caso das pessoas que se «sentem isoladas» e que viram no projeto «um alento para ocupar os seus dias».

Cada sessão tem, no máximo, 30 minutos, um limite que a técnica considera ser o «ideal» tendo em conta que este projeto é dirigido a pessoas com «alguma dificuldade em manter a atenção». Até ao dia 15 de janeiro, altura em que foi decretado o encerramento das escolas, já tinham sido realizadas seis sessões. Neste momento o projeto está suspenso, mas todos os voluntários programados para essa quinzena, foram reagendados. «Temos 31 sessões agendadas com 31 voluntários diferentes», adianta Rita Rosa. Dessa bolsa de voluntários faz parte, por exemplo, uma aluna de 11.º ano que se propõe fazer uma experiência química em conjunto com os utentes, e ainda três músicos: um com violino, outro com guitarra e a outra com um projeto de cantigas à janela. O objetivo é que cada sala, das 15 que compõem o CRIF, tenha «pelo menos a visita de um voluntário habitual», um desejo que também já foi partilhado pelos próprios participantes que manifestaram a vontade de «manter uma regularidade» nas videochamadas.

Dar uma aula de Zumba na hora de almoço. Porque não?

Nas salas que já tiveram a oportunidade de conhecer seis pessoas diferentes, os utentes «ficaram sem palavras» o que, Rita Rosa acredita, se deveu ao facto de muitos deles «nunca» terem tido essa experiência de «falar com alguém». «Ficaram a absorver o que tinha acontecido», recorda. Através do projeto Zoomas-me uma história?, a equipa do CRIF tenta «trabalhar as questões cognitivas» com os utentes de forma a que exista uma «continuidade». Paralelamente, antes de cada sessão, os psicólogos formulam com os utentes algumas perguntas «mais profundas e dinâmicas» para estes fazerem aos voluntários e não serem apenas «perguntas do quotidiano».

Das sessões já realizadas, fizeram parte, entre outros, o escritor Gonçalo M. Tavares e a contadora de histórias, Marisa Gomes, da Biblioteca Municipal de Porto de Mós. Além disso, a vontade de ajudar é tanta que há até quem marque sessões na hora de almoço, como foi o caso de uma voluntária que trabalha num gabinete de arquitetura mas que aproveitou esse tempo para dar uma aula de Zumba aos utentes do CRIF. «Sinto que este projeto pode continuar a ter pernas para andar. Mesmo com a pandemia é uma forma de abrir portas à comunidade», sublinha. Apesar do interregno, o CRIF continua a aceitar inscrições e quem estiver interessado basta enviar um e-mail para: [email protected]