Prevenção a sério é uma miragem entre nós

6 Abril 2026

A depressão atmosférica “Kistin” atingiu-nos severamente e provocou destruição e sofrimento em todo o país, em particular na região centro e, nomeadamente, nos distritos de Leiria e Coimbra. Chegou no dia 28 de Janeiro último, testou a nossa fragilidade e venceu-nos, claramente. Arrombou a porta, levou os nossos bens mais preciosos e deixou-nos mais pobres. 

A magnitude das suas consequências mostrou-nos a vulnerabilidade das nossas infraestruturas, face a fenómenos naturais deste calibre. A resposta da administração central à crise instalada foi lenta e descoordenada. Chegou a ser confrangedor assistir às primeiras intervenções públicas de alguns governantes a falar sobre o assunto. Pareciam atarantados com a situação que viam à sua frente. Faltou liderança política com uma voz credível e capaz de imprimir alguma tranquilidade ao caos instalado. Demonstrámos, mais uma vez, que não sabemos gerir em contexto de emergência.

Os efeitos devastadores da tragédia não se devem apenas à violência verificada. Devem-se também aos governos (centrais e locais) e, bem assim, aos cidadãos em geral. Em devido tempo não soubemos precaver o futuro e criar capacidade defensiva capaz de resistir melhor a eventuais ocorrências deste género e minimizar danos graves, alguns deles evitáveis. Isto quer dizer que não temos uma verdadeira cultura de prevenção do risco. Somos muito dados ao improviso e à adoção de soluções fáceis, simples e aligeiradas. Não valorizamos, como devíamos, o planeamento estratégico e as soluções estruturais e suscetíveis de nos trazerem segurança futura. Privilegiamos, tendencialmente, os resultados certos e de curto prazo, em detrimento de benefícios previsíveis a alcançar num horizonte mais longínquo, mas que se podem revelar decisivos para mitigar eventuais consequências como as que ocorreram. Com isto justificamos a expressão que se ouve frequentemente “bem… o futuro logo se vê”. Somos assim, não apenas por questões culturais, mas também porque nos faltam os meios financeiros para sermos mais preventivos. Portugal não é um país rico e essa realidade potencia, e justifica muitas vezes, o nosso comportamento no dia-a-dia. Não é legítimo exigir a uma família que viva numa habitação de grande qualidade e que priorize a prevenção, quando lhe falta na mesa o pão desejável e o saldo positivo na conta no final do mês. Não é expectável que uma pequena empresa invista em instalações fortes e em equipamentos de reserva, quando a sua principal preocupação é o estado da tesouraria no final do mês. Ao invés, é legítimo exigir ao Estado que saiba preparar o futuro de todos nós com mais rigor e exigência. Que seja determinado e competente na construção e manutenção de infraestruturas mais resilientes a incêndios, cheias e ventos ciclónicos. Que seja capaz de cumprir e fazer cumprir leis e regulamentos relativos à gestão e ocupação do nosso território, público e privado. Que tenha vontade política e disponibilidade para lutar com “quintas e quintais” onde repousam interesses velhos a cheirar a mofo. Mas essa reforma implica seguir um caminho muito difícil e não dá muitos votos… 

Agora, assistimos ao desfile de especialistas a difundir o diagnóstico da crise e à afirmação inflamada do governo “vamos ser mais resilientes a calamidades futuras”. São cenas de um filme em repetição. Veremos se é desta.