Há que Saber Sonhar

20 Maio 2026

Já alguma vez acordaram de manhã com um sonho bem vívido na cabeça e, no momento em que o estavam para contar à vossa mãe — enquanto enfiavam uma colher de leite com cereais na boca —, já não se lembravam sequer de que cor era o céu? E que estes sonhos têm um significado? Eu acho que sonho muito em branco, porém existem algumas pérolas, de muitas cores, que consigo transformar em memória.

A semana passada estive a trabalhar num festival e havia um saco de merchandise que eu queria muito, com uma senhora deitada e livros na sua bota. Não queriam dar sacos à equipa, com medo de não chegar para todos. Fiquei logo decidida: “Vou levar um saco para casa”. Durante dias, passava por eles e acarinhava-os com a mão, como quem marca território. Numa manhã, entram de rompante e dizem: “Não temos sacos suficientes, vamos ter de dar os vossos”. Eu levanto-me, dou um pontapé no ar, faço três piruetas de ballet e uma cambalhota, enquanto grito “não!”. Zangada, agarro-lhe nas mãos e faço-lhe cócegas até ela largar. Enquanto se ria, eu acordei.

Quando o meu cão ainda era vivo, passeava com ele numa noite de verão. De repente, um carro vermelho com vidros embaciados para ao nosso lado. “Boa noite, o que fazem por aqui?”. Fico em alerta. “Estamos só a passear, vamos já para casa”. “Não queres entrar?”, pergunta. “Eu?! Nem pensar”. “Não era para ti”. Olho para o Luke. O homem também. “Nem te atrevas a levar-me o cão!”. Corro com ele até casa, o carro atrás. Perto da porta solto a trela. O homem sai do carro. Eu salto para lhe dar um pontapé — e acordo antes de lhe tocar.

Uma vez fui a uma casa abandonada. Fantasmas dançavam ao som de um piano e convidaram-me a jantar. Quando me sentei, a cadeira prendeu-me. O jantar era o meu sacrifício. Tentei soltar-me, sem sucesso. Um fantasma aproxima-se. “Para!”. Ele para. “Mas está tudo bem com vocês? Soltem-me!”. De repente, o ferro vira corda, depois cobra, depois goma. “Agora virem-se de costas e saltem ao pé-coxinho enquanto bebem Fanta de laranja”. E assim fizeram. O jantar virou festa da espuma num parque aquático no Algarve. E eu acordei.

Os meus sonhos revelam um padrão: quero muito coisas que sinto que são minhas, tenho um medo dramático de as perder e reajo como quem está numa mistura de filme de ação, ballet e desenho animado. Protejo, fujo, grito, faço piruetas e, quando já não dá pela força, invento regras novas — e, curiosamente, resulta. No fundo, não sei resolver nada “como deve ser” mas sei sonhar o suficiente para baralhar o problema até ele se resolver sozinho.