Água

24 Agosto 2026

A poeta polaca Wislava Szimborska, prémio Nobel, tem um poema em que afirma que “tudo é político”. Penso, desde há muito tempo, que a água é o elemento mais político de todos. Discute-se muito na Mendiga, a falta de água deste verão. Haverá uma responsabilidade política, que é antiga, quanto à construção da rede, que poderá ser debatida. Não é o caso deste artigo. Para quê falar de fiscais municipais que não fizeram o seu trabalho; de empreiteiros que ganharam dinheiro, não fazendo o que estava em caderno de encargos; da possibilidade de a rede estar apenas a precisar de substituição urgente. Tudo isso é grave e tem os seus lugares de ser debatido e escrutinado.

O que importa aqui, é sim discutir a falta de educação ambiental, da nossa população serrana, sobretudo no que concerne ao consumo de água. É estranho tantos de nós termos esquecido o que era a vida antes de haver rede pública; o cuidado com a sua utilização e devida gestão para dar para pessoas e animais. Não existe esse cuidado para com uma fonte que se julga infinita.

Torneiras abertas para um ralo directo, jardins com relva impecável, piscinas, mangueiradas na calçada para “arrefecer”. Tantos itens para contabilizar um desperdício; um caminho inconsciente para o deserto que se vai anunciando. A responsabilidade última, sobre os bens de interesse comum, é de cada cidadão. Não nos enganemos, todos somos protetores do futuro.

No pico da última seca na região da Cidade do Cabo, na África do Sul, cada família dispunha de 50 litros de água por semana, para tudo, incluindo para matar a sede. Quantas guerras por territórios não são motivadas pela falta ou presença de água?

Que rio de silêncio engorda e cava margens na nossa indiferença?

No lado positivo, temos casos de vários rios, das áreas industriais do país, que a determinado momento foram considerados mortos e que agora recuperam com uma vida tímida, cada vez mais florescente. No nosso país, que eu saiba, nunca se recusa um copo de água a ninguém. Há autarquias com políticas importantes de gestão da água de espaços públicos, como rega de áreas ajardinadas. Há exemplos múltiplos de minimizar a evaporação dos canais de rega e lagos com painéis solares. Tudo se interliga. Tudo é um caminho a inventar. Todos somos gotas do mesmo amanhã.