O — improvável — injustiçado da IA

5 Outubro 2026

Quem são os vencedores e perdedores da Inteligência artificial (IA)? 

Ainda estamos no olho do furacão do momento mais disruptivo da história da humanidade. A invenção da imprensa demorou séculos a democratizar o acesso à informação. A Revolução Industrial levou décadas a generalizar a substituição de trabalho manual pela automação mecânica. A velocidade com que a Internet se generalizou já parecia vertiginosa, mas nada se compara à velocidade da adoção da IA que, pela sua capacidade de se melhorar a si própria, está a levantar debates éticos e filosóficos sobre o que fazer com tanto poder. 

Há dezenas de debates relevantes a decorrer atualmente sobre o papel da IA e que dariam para muitos textos a navegar entre o catastrofismo e o deslumbramento em torno da IA. Temas sérios, mas não para hoje.

Um dos maiores perdedores desta revolução está a ficar com a reputação irremediavelmente comprometida e ninguém fala dele: o travessão (—).  

A IA adora usá-lo nos textos! Perguntei ao Claude porquê e parece que é porque: É comum na escrita em inglês, é versátil e deve aparecer com frequência em textos “bem escritos” no conjunto de treino, o que leva o modelo a reproduzi-lo mais.  

O — era um sinal de pontuação de respeito, tinha o seu papel na indicação dos diálogos e assumia-se orgulhoso da eficácia em isolar explicações numa frase. Mas agora, tem-se confrontado com a sensação de ser olhado com desconfiança sempre que aparece num texto.

Admito que seja um viés profissional, porque ironicamente a IA continua a preferir textos “humanos” para apresentar nas suas respostas, mas dou por mim a ter um alerta mental sempre que vejo um travessão, mesmo nas histórias infantis que leio ao meu filho.

Ainda bem que o Machado de Assis publicou o “Memórias Póstumas de Brás de Cubas” em 1881, porque senão lá ia eu torcer o nariz logo a abrir o livro quando ele começa: “Acresce que chovia — peneirava — uma chuvinha miúda, triste…”.

A ruína reputacional do — só não é maior, porque há outro protagonista da história que está a enfrentar danos iguais e com implicações ainda mais violentas. O pensamento crítico já tem insónias há muitos anos. Nunca foi popular no recreio das ideias, mas acontece que entretanto apareceram uns tipos novos: o “Fake News” e os acólitos “Mêmes”. Dão-lhe tareia e roubam-lhe o almoço, mas ninguém parece fazer caso disso. 

Desconfio que ninguém se esteja agora a questionar:

— Isto que acabei de ler foi mesmo pensado, ou substituíste os — por vírgulas só para fingir que sim?