Acima de Deus, Ronaldo… será?

8 Outubro 2026

Era pequenina, meus 7 ou 8 anos, e ver-me feliz era ver-me aos chutos a uma bola ou a ver o “meu” Benfica jogar. O meu, disse. Gostar de futebol e de um clube traz-nos esta ideia de pertença, aquele clube pertence-nos, dá-nos identidade, e faz-nos acreditar que quando a equipa ganha ou perde, nós também ganhamos ou perdemos. Podemos jurar que somos salvos por aquele golo aos 90+3 que dá a vitória à nossa equipa. Acima de Deus, aquele pé que dribla, aquele cabeceamento certeiro no fundo das redes, aquele corte no tempo certo. O futebol é, de facto, como dizia o treinador italiano Arrigo Sacchi, das «coisas menos importantes, a mais importante». É porque o futebol nos salva, em dias em que a vida, a de verdade, nos pesa, que ele tanto nos faz pensar, discutir, argumentar. E sabemos, no final do dia, que não muda a nossa vida, embora mude. 

Cristiano Ronaldo fez-nos acreditar muitas vezes que nos salvava. Há uma seleção antes e depois de Ronaldo. Há um Portugal antes e depois de Ronaldo, que tantas vezes parecem a mesma palavra. «Sou portuguesa», disse em países que visitei, sempre com a mesma resposta: «Ronaldo!». E eu sorria, orgulhosa, pensando «pois é, ele é nosso, é do meu país». Acima de Deus, Ronaldo… Será?

A menina de 7 ou 8 anos tem pena de estar a despedir-se de uma era bonita. E lamenta que a despedida não seja feliz como deveria ser a de um jogador que bateu todos os recordes e nos deu tantos momentos de magia. Mas hoje, acima de Deus, eu não vejo Ronaldo, nem nenhum jogador. Hoje sei que não há deuses do futebol. O futebol é uma máquina onde os adeptos, aqueles que realmente amam este desporto, estão no fundo da cadeia. Mesmo que sejam os mesmos que, de um ordenado mínimo, arranjam 40 euros para ir ao estádio gritar pelo clube em plenos pulmões. Hoje, para mim, os deuses do futebol, são os adeptos. E cheira-me que, qualquer adepto, aquecia sem entrar, se fosse preciso, 90 minutos. Acima de Deus, os adeptos.