Afinal somos ricos…

21 Outubro 2026

Assistimos hoje a um verdadeiro frenesim de comentadores televisivos. Há dias, a preocupação era como interpretar melhor o discurso confuso e errático de um “louco” americano, que se julga dono do mundo. Segundo eles, a preocupação do observador deve levar em conta um novo conceito de verdade muito em voga atualmente – a era da “pós verdade”. Trata-se de um fenómeno, dizem, caracterizado, essencialmente, pela “perda de influência dos factos objetivos na formação da opinião pública”. Ou seja, a verdade que nos ensinaram e nos habituámos a respeitar, deixou de o ser e passou a ser aquilo que cada um quiser que ela seja. Por vezes, a verdade será uma “coisa” que fica entre a verdade factual e a mentira descarada validada ao sabor do ator e das circunstâncias. Nós por cá, acompanhamos a moda com vários atores políticos que manifestam uma relação difícil com a verdade. O nosso Primeiro-Ministro segue na frente. 

Luís Montenegro, há poucas semanas foi tomado por um assomo de gabarolice e não fez a coisa por menos: “Portugal faz corar de inveja qualquer economia da União Europeia”. O problema de Montenegro é que os factos desmentem-no de forma flagrante. Entidades insuspeitas como FMI, INE ou BdP, mostraram que Portugal desceu 4 posições no ranking do rendimento “per-capita” europeu. Não conseguimos agora ir além de 77% do rendimento médio por pessoa na europa comunitária. Os dados do INE apontam para um défice orçamental no final de 2026, coisa que não se via desde 2022. A despesa corrente primária vai com 8% de aumento no ano em curso, enquanto a receita cresce apenas 6%. A dívida pública no último semestre subiu, e, atingiu 93% do PIB. O BdP prevê um défice em 2026 e o agravamento do mesmo até 2028. Por último, Durão Barroso declarou há dias que “Portugal é o país mais pobre da Europa Ocidental”.

Consciente destes números, o presidente do PSD, voltou a fazer magia no último congresso do partido. Na esperança de reagrupar algumas cabeças do seu rebanho que têm andado tresmalhadas, carregou nas sílabas e tirou da cartola uma “lebre” de fazer inveja ao melhor mágico, “Vamos criar um fundo soberano”. Ao ouvi-lo, saltei do sofá e gritei: força Luís, estou contigo! Afinal somos ricos e não sabíamos. Já mais calmo, e na dúvida, fui reler apontamentos antigos sobre fundos financeiros, que ainda guardo na minha posse, e conclui que estes, os soberanos, só estão ao alcance de países com grandes excedentes orçamentais ou minerais raros. Não sendo este o caso de Portugal, quais serão então as fontes de financiamento do fundo soberano anunciado? Será o aumento de impostos? O aumento da dívida pública? A redução da despesa corrente primária? Qual será, afinal, a origem do dinheiro que há-de constituir essa reserva/poupança nacional de milhares de milhões de euros? Ou virá aí um “fundo soberano” sem fundos relevantes que não servirá para nada? É a hipótese mais provável! 

A tentação de mentir é grande, porque conforta. A verdade desagrada. Mas em matéria de gestão, mesmo política, pensar e agir como rico, sendo pobre, não chega longe nas suas ações.