A guerra do sonho

3 Maio 2026

“A Arte da Guerra”, livro de estratégia militar atribuído a Sun Tzu, chinês que viveu em torno de 500 a. C., é a bíblia dos estrategas militares e políticos mundiais ainda em pleno século XXI. Este é dividido em 13 subtemas que tratam assuntos como planeamento bélico e estratégias de campo de batalha, recursos pirotécnicos e inteligência ou espionagem. É utilizado também em termos políticos, para a avaliação e combate de adversários, pelos políticos actuais e seus chefes militares. Só é igualado e complementado pel’ “O príncipe” de Nicolau Maquiavel, escrito mil anos depois, na influência sobre a forma de gerir Estados e as suas lutas. 

Na objectividade pacífica que os eventos actuais podem despertar, rapidamente se percebe que a guerra é um jogo num tabuleiro global; as peças são de carne humana; os jogadores movem peças como números e não pessoas; exércitos de peões e exércitos invisíveis de vítimas, do sofrimento atroz de tudo perder. Tudo um jogo onde, quando se perde, se repõem as peças de novo.

Distam de nós 55 anos, desde que John Lennon editou a canção “Imagine”, nela desenhando a utopia de dizer não à guerra; deixar de nela acreditar, desacreditando esses perversos jogadores. A história humana está cheia de criações e manifestações que apelam à paz. Aliás, desde as primeiras moedas romanas cunhadas se apelava à paz, no mesmo dinheiro que era fruto do sangue de carrascos e vítimas. 

Seis mil e quinhentos anos de expressões escritas das piores descrições de conquistas e dos melhores mundos novos que se idealizaram depois da devastação. Mesmo na premissa de Samuel Beckett, de “Falhaste! Tenta outra vez! Falha melhor!”, continuamos a falhar mal em muitos planos da nossa existência social. 

Não obstante, se enumeramos as referências que refiro neste texto aos governantes de Portugal e Europa, uma grande parte só conhecerá as duas primeiras. A violência em geral, na forma de guerra em particular, é uma escolha trabalhosa; saber que livros escolher para manter uma consciência bélica; como manobrar os pensamentos dos seus compatriotas para que acreditem na mentira; florear o tabuleiro infecto de sangue para que se renovem as peças, de acordo com a taxa de natalidade do país. 

Parar tudo isto depende de nós. Podemos quebrar o nosso silêncio cúmplice. Aqui no nosso país, poderiam os Tribunais julgar os políticos, por apoio (em nosso nome) a várias barbáries e genocídios que os seus amigos vão cometendo. Essa sim, seria uma guerra de sonho.