CHEGA, Chegou

1 Dezembro 2025

Nada é imutável. Durante muitos anos pensei que os extremos da política em Portugal não passariam disso mesmo, de extremos. A sua irrelevância na sociedade portuguesa, impossibilitava-os de alcançarem o poder pela via democrática. Enganei-me! A paisagem partidária em Portugal alterou-se significativamente em apenas 6 anos. Hoje, a extrema-direita portuguesa, liderada pelo partido CHEGA, já desfruta de uma forte presença na Assembleia de República e conquistou agora, nas eleições autárquicas do passado dia 12 de outubro, uma significativa presença no país. Entre nós, participa no poder executivo da Câmara Municipal, com um vereador, no poder deliberativo e fiscalizador com 3 deputados na Assembleia Municipal e em várias Assembleias de Freguesia do concelho. Não obstante, o resultado alcançado foi escasso, face às expectativas de partida, mas teve, sem dúvida, um especial significado. Foi mais uma vitamina para ego megalómano do líder do partido, o qual passou a gritar, justificadamente, “concorremos em todos os concelhos e estamos em todo o lado”. O Doutor André Ventura continuará, assim, a desfilar em palco vendendo ilusões e a despertar consciências adormecidas. Assume-se como um messias, mensageiro da “boa nova”, da verdade, da moral e da ética. É o portador da solução milagrosa que resolverá os problemas graves que a nossa sociedade enfrenta hoje. O discurso é enfático e encantador. Atrai muitos incautos, revoltados e descontentes com os resultados da governação dos dois principais partidos portugueses ao longo de 50 anos. A demagogia e o populismo da extrema-direita está a fazer o seu caminho e, entretanto, chegará à meta. É forçoso reconhecer que o homem é mesmo muito bom na técnica de influenciar as massas. Mas quando chegar a São Bento e bater de frente com a realidade, depressa subirá ao trapézio e fará o jogo do equilíbrio para permanecer no poder, como o fez a sua correligionária Giorgia Meloni, em Itália. Chegado aí, jamais gritará “vamos limpar Portugal” ou “vamos romper com o sistema”. Os meus cabelos brancos não me permitem ser mais otimista.

Assistimos hoje a uma clara promoção do culto salazarista, protagonizada pelo líder do partido Chega, seguido de perto pelas suas bases, fiéis e apaixonadas pela sua doutrina. Até há bem pouco tempo, mostrar simpatia pelo Estado Novo e por Salazar era tabu generalizado. Hoje, a família Chega já fala do assunto sem tibiezas. Há dias, numa sala de espera de um hospital público, um colega de ocasião, indignado pela demora, gritava: “o que era aqui preciso era um Salazar, um não, dois ou três”. Olhei em volta e vi meia dúzia de cabeças a fazer o sinal de afirmação e concordância. Em silêncio, pensei: por este andar, em breve teremos alguém a suplicar expressamente pelo regresso da ditadura. 

Aos saudosos desse regime, lembro alguns dados apenas do Portugal de 1974 e do Portugal de hoje. Os números são do INE, BdP, e Pordata: o analfabetismo era de 26%, hoje é 3,1%; a esperança média de vida era de 66 anos, hoje é de 82 anos; morriam 53 crianças em cada mil que nasciam, hoje esse indicador é de 3 por mil nascimentos; entre 20% e 25% das pessoas viviam em lares sem água, eletricidade e saneamento, hoje essa taxa é de entre 3 % e 4%; as exportações atingiam 17% do PIB, hoje é de 48%; no ranking mundial de desenvolvimento humano (IDH), Portugal ocupa hoje a quadragésima posição, em 1974 não havia valor para o nosso país, porque estávamos “orgulhosamente sós”, como afirmou Salazar em 1965, a propósito da guerra em África.