No último artigo, deixei em aberto voltar ao Verão Quente 75 em Porto de Mós. Para uma referência, em 1975, após convulsões políticas, surgiu o Documento Dos Nove, encabeçado por M. Antunes, a que Otelo respondeu contrapondo com o COPCON.
Na sequência das alegadas insurreições verificadas em Porto de Mós, foi enviada para o COPCON listagem com nomes de pessoas que pretensamente teriam alimentado tal movimento. Sei de onde partiu, mas por razões óbvias não divulgo. Aqui, recordo o início de uma noite em que estando de serviço como Oficial de Dia no Regimento de Leiria, recebi uma mensagem entregue pelo Cripto da Unidade ao qual, dada a codificação de Urgente e Confidencial, apenas duas pessoas poderiam ter acesso. Em primeiro, o Comandante da Unidade e, no caso de este não estar presente, dada a urgência, o Oficial de Dia. Assim aconteceu. Abri a mensagem, lendo e relendo o que nela constava. Um pouco atónito, ponderei decisões a tomar. Liguei ao Comandante da Unidade, que estava no seu recato familiar na Cidade de Leiria, dando-lhe conhecimento. De imediato me disse e cito: «Alferes Salgueiro, aguarde que vou já aí». Tal mensagem vinha assinada por Otelo, em nome do COPCON, e nela constavam vários nomes de pessoas a deter, de Porto de Mós e de Alcobaça. Chegando à unidade, o Comandante leu e disse-me: «Dado o melindre da situação, sigilosamente, amanhã de manhã vá a Porto de Mós deter estas pessoas e trazê-las para o Quartel». Respirei fundo e, no cumprimento de toda a hierarquia militar, disse: «meu Comandante, com todo o respeito pela ordem de Sua Ex. (era Coronel), surge um problema: estas pessoas que vêm na lista são minhas amigas, têm filhos da minha geração e daqui a três meses irei conviver com eles no dia-a-dia. Será uma situação difícil». Sem pensar muito disse-me logo: «Tem razão. Não me tinha lembrado desse pormenor. Então nesse caso, vai buscar os de Alcobaça». Não me restava outra alternativa. Não obstante conhecer todos os que da lista faziam parte, era para cumprir. Nessa mesma noite (o crime prescreveu e, não havia escutas) telefonei a um amigo e disse-lhe: «Avisa fulano e fulano para se refugiarem, porque esta noite vão ser detidos». Não cito nomes, até porque alguns ainda estão vivos. Assim tudo aconteceu. O meu colega veio a Porto de Mós, não encontrando alguns dos nomes referidos. A mim coube-me a tarefa de ir buscar as pessoas de Alcobaça, detendo três dos quatro referidos cumprindo assim a ordem de Otelo.
Para concluir, todos nós, nos livros que lemos, retemos sempre algum pensamento. Mau seria se assim não fosse. Num livro que li recentemente, da autoria do professor Dr. João Beato, com raízes na Freguesia de Pedreiras, uma frase me ficou retida, e a cito: «À medida que os anos passam aureolados de luzes e sombras, e em nós vão deixando marcas de um passado mais ou menos próximo, há imagens que, esfumadas na névoa da distância, se nos desprendem da memória e nos convidam a repensar o mistério da vida e o sentido da existência». Grande verdade!


