Criatividade

15 Julho 2025

Houve tempos idos em que havia banda larga mental em excesso para os estímulos. Havia uma coisa para fazer de cada vez (com sorte), confrontando-nos com longos e penosos momentos de tédio. Esse que nos fazia reler diariamente a caixa dos cereais de pequeno almoço, mesmo quando os ingredientes já estavam decorados.

Nas salas de espera talvez ainda se encontrem, em processo de fossilização, alguns exemplares de revistas amassadas e de cantos gastos que nos lembravam onde tinham sido as férias dos reis de Espanha no ano passado e que, afinal, o romance daqueles atores não acabou com o “viveram felizes para sempre”. As noites eleitorais! Esse calvário infantojuvenil que bloqueava os parcos canais disponíveis com pessoas aborrecidas que falavam, sabe-se lá, de quê. Talvez o pódio vá para um amigo meu, que trauteava de cor a música de arranque do router. Sim, houve um tempo que que ligávamos a Internet e íamos lanchar enquanto o serviço arrancava. Na modernidade alucinante dos anos 20 do nosso século, o mais aproximado será a espera semanal que agora temos de fazer pelo último episódio de Last Of Us. Imagine-se agora o mundo sem box de gravação e em que tínhamos de estar disponíveis à hora exata, ou então perdíamos aquele episódio para sempre! O genérico de entrada era a excitação que celebrava o enterro da espera.

Oh aborrecimento cruel dessas viagens de autocarro, em que nada mais havia para fazer do que imaginar histórias mirabolantes a partir de um rosto, de uma mala ou de uma conversa  alheia que nos era imposta. As grandes viagens de carro onde a música da rádio nos dava a banda sonora das fantásticas aventuras que iam em desfile pela nossa cabeça. E sim, aquelas discussões acaloradas, cozinhadas durante horas como uma chanfana de argumentação, em lume branco e apurada, que foram arruinadas! Primeiro pelo Google, que trouxe respostas, depois a “pós verdade” que trouxe todas as ideias e o seu contrário, sempre com estudos e imagens para o provar. As sinapses hoje estão a entrar em sobreaquecimento tal o volume de estímulos que nos esmagam e alucinam. Estamos sempre ligados e depois procuramos um buraquinho na agenda saltitante para desligarmos numa meditação, yoga ou prática de mindfulness. Estamos viciados na dopamina do estímulo imediato. O tempo médio de atenção está a diminuir, e as doenças mentais ligadas à ansiedade crescem. O que fará isto à criatividade? Não morreu, nem há-de morrer… e ainda bem! Mas o produto criativo que nasce numa mente com espaço e tempo será necessariamente diferente da ideia que tem de ser o espermatozoide mais rápido, daquela conceção criativa de ideias que correm e competem à velocidade do 5G.