O que estavas a fazer quando se deu o apagão de 28 de abril de 2025, poderão perguntar daqui a uns anos?
Eu estava a entrar no Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, quando nos informam que havia um corte de energia. Esperava-se uma resolução rápida. Só daí a uma hora é que percebo a real dimensão quando pego no telemóvel para tirar uma fotografia e começo a ver as notificações.
No final da visita entramos num restaurante e avisam-nos que o serviço está difícil. Ajustamos o pedido ao que está pronto e temos sorte, porque pouco depois a gerência deixa de aceitar clientes. Não tem condições para servir as refeições.
Nem a rede elétrica aguentou a tensão do debate entre o Montenegro e o Pedro Nuno Santos, ironizo, enquanto acompanho as notificações, que se sucedem no ecrã do telemóvel. Pouco tempo depois, uma nova: debate adiado.
A conta é feita à mão, com o senhor a escrever a soma na toalha da mesa.
Passamos por duas jovens que perceberam naquele dia a importância da regra do código da estrada, da prioridade aos carros que se apresentam pela direita. Muito útil num dia sem semáforos, o que nos leva a adiar a visita à Biblioteca Joanina.
No regresso a casa vamos acompanhando o estado do apagão pela rádio.
Não se espera que a eletricidade regresse entretanto. Por isso, há que antecipar o final do dia. Felizmente estamos em abril, e temos luz até mais tarde!
O telemóvel está a 4%. Ponho-o a carregar, usando a bateria do computador. Um esforço quase inútil, porque em breve só permite fazer chamadas de emergência.
A água corre na torneira, ainda que sem pressão. Encho três jarros para o caso de a torneira secar.
Desde que saí do carro deixei de ter contacto com o mundo. Recupero um velho rádio. Que pilhas são estas? Não faço ideia. Vou a uma loja comprar pilhas. Afinal já não funciona. Compro o último rádio da loja, que a senhora desliga e coloca na caixa.
O jantar é feito num fogareiro de campismo, que estava há 12 anos guardado na garagem, desde o temporal de janeiro de 2013.
O miúdo anda entusiasmado com um final de tarde sem o Spidey. «Não há eletricidade», vai-nos dizendo, enquanto salta pelo sofá. Há umas velhas revistas de carros, que são revisitadas. A luz começa a fraquejar, e o banho do miúdo é tomado na sala, dentro de uma bacia, com água aquecida no fogareiro. Ele acha divertido.
Foi um dia terrível para milhares de pessoas, e a nossa política energética irá alimentar os debates nos próximos dias, até outro tema tomar a ribalta da vertigem noticiosa.
No entanto, do alto do meu privilégio, admito que vi algo de poético nessas horas desconectados dos ecrãs e de olhos levantados a sentir o que nos rodeia, a uma velocidade mais lenta.
Ou será que o apagão iluminou apenas a solidão coletiva em que vivemos, na aparente vertigem do estarmos sempre conectados?
A electricidade regressou ainda nessa noite. Escrevo esta crónica na manhã seguinte. O miúdo está a ver Spidey. Espreito, num ato masoquista, a verborreia dos comentários das redes sociais. Tudo na mesma, como a lesma.


