Crónicas do admirável mundo novo: a fé na imaginação

2 Junho 2025

O significado da palavra “Utopia” advém do título de um livro com esse nome, publicado pelo filósofo inglês Thomas More, em 1516. Nele, através da voz de um narrador português de seu nome Rafael Hitlodeu, o autor descreve uma sociedade ideal ficcionada. Essa, seria marcada por elementos tão impossíveis de alcançar tais como a paz, a igualdade entre os seus cidadãos ou a inexistência de prisões, por um outro sistema de aplicação da justiça.
Apesar de existirem alguns exemplos efémeros de sociedades que experimentaram soluções de governabilidade próximas destas ideias, como a Comuna de Paris (1861), ou outras Zonas Autónomas Temporárias criadas em inspiração do livro de Hakim Bey (1985), não existem até ao momento registos de uma sociedade duradouramente utópica.

O que a evolução do pensamento filosófico nos deu é que a definição de utopia aponta para a impossibilidade – algo muito útil à manutenção dos status quo democrático ou autocrático que se distribuem pelo mundo. Não obstante, já desde o pensamento pré-socrático da Grécia, que alguns defendem que se o ser humano pode imaginar alguma coisa, por certo poderá concretizá-la. Toda a nossa história de evolução técnica é prova disso. Então, pergunto, porque nos arrastamos em soluções políticas cuja falência é comprovada, seja à direita ou à esquerda?

Parece que o problema está na falta de imaginação dos políticos, para o desenho de novas formas de governação dos seus territórios, tendo como finalidade a real justiça igualitária entre todos os cidadãos. Mas, aí, rumamos à responsabilidade dos que votam, sabendo que são cúmplices da fraude.

Não se trata de uma “pescadinha-de-rabo-na-boca”. Para mudar, efetivamente, é muito simples, basta mudar. Faltará, talvez, a coragem para o fazer. E assim nos vamos arrastando de pequena mudança em pequena mudança, repetindo o mesmo erro capitalista desde o Neolítico. É mais grave do que isso, pois parece-me que existe uma consciência escondida nas pessoas, que lhes diz que qualquer mudança dá muito trabalho. No fundo, toda a evolução da técnica acontece em prol de um bem chamado preguiça. Assim, que trabalhem os políticos para o nosso bem, que o que se quer é o máximo de dias sem fazer nada e uns eletrodomésticos para nos entreterem.

É possível que esteja a ser utópicamente ingénuo, ao ter a esperança de que consigamos um dia inverter a inércia de ações e soltar a imaginação desde a almofada onde sonhamos até à vida que construímos acordados. A Esperança é a última a morrer, dizem. Então, a fé na imaginação deve estar guardada bem perto dela.