A tempestade Kristin já passou. O vento acalmou, a chuva deu tréguas e a vida, aparentemente, regressou ao normal. Mas quem conhece o território sabe que, depois da tempestade, fica sempre qualquer coisa. E desta vez, ficou muito.
Ficaram árvores tombadas, caminhos florestais obstruídos, acessos comprometidos e uma paisagem que, em muitos locais, ainda fala mais de destruição do que de recuperação. Ficou sobretudo, um problema silencioso, daqueles que não fazem manchetes, mas que podem ter consequências graves quando o calor chegar.
Nos concelhos mais afetados, como Porto de Mós e no distrito de Leiria, o cenário repete-se: vias florestais parcialmente ou totalmente bloqueadas, acumulação de material lenhoso e uma urgência que não se resolve apenas com boas intenções. Porque aquilo que hoje é um obstáculo, amanhã pode ser combustível.
Entretanto no terreno, os bombeiros fazem o que sempre fizeram: adaptam-se. Contornam caminhos fechados, encontram alternativas, chegam onde é possível e por vezes, onde parece impossível. Mas convém não romantizar o improviso. A capacidade de adaptação não substitui a necessidade de prevenção.
Os dados são claros: a remoção do material lenhoso é uma prioridade de interesse público, essencial para reduzir o risco de incêndio rural. Existem prazos definidos, mecanismos disponíveis e até plataformas criadas para apoiar proprietários nesse processo. Falta muitas vezes, transformar essa informação em ação concreta.
Talvez porque, longe da urgência do momento, a perceção de risco também abranda. Afinal, o fogo ainda não começou. E enquanto não começa, há sempre tempo. Até deixar de haver.
É curioso como se espera que perante caminhos inacessíveis e terrenos por limpar, a resposta seja sempre imediata, eficaz e total. Como se a proteção civil funcionasse independentemente das condições do terreno. Como se os obstáculos fossem meros detalhes logísticos e não fatores críticos de segurança.
A verdade é simples: quando os acessos falham, o tempo de resposta falha com eles. E quando o tempo falha, tudo o resto fica mais difícil.
A tempestade Kristin deixou-nos um aviso claro. Não sobre o que aconteceu, mas sobre o que pode acontecer a seguir. A prevenção não se faz no dia em que o incêndio começa. Faz-se agora, enquanto ainda é possível chegar lá.
Porque, quando voltar a ser preciso, e será, não haverá tempo para desculpas. Haverá, isso sim, a consequência das decisões adiadas, dos caminhos que ficaram por limpar e das responsabilidades que ninguém quis assumir. E como quase sempre, alguém terá de chegar primeiro, mesmo quando já chega tarde.


