Comemorou-se no princípio deste mês o Dia Internacional da Literacia, pelo que me parece oportuno trazer à baila um tópico que há muito me inquieta. De acordo com a sua definição mais básica em qualquer dicionário da Língua Portuguesa, a literacia é descrita como a capacidade de ler, escrever, compreender, interpretar e utilizar informação em diferentes contextos, mas o conceito evolutivo de uma língua aplica-se aqui às mil maravilhas, porque a literacia está também intimamente ligada a áreas tão díspares como a académica, científica, digital, tecnológica, social, et cetera. Mas já lá vamos. A nível alfabético, observamos que hoje são cerca de 97% os cidadãos residentes em território nacional com mais de 10 anos que sabem ler e escrever (INE/Censos de 2021). Porém, os últimos dados do estudo PIAAC da OCDE, refletidos no relatório “Education at a Glance” (“Panorama da Educação”, em tradução livre), mostram que quase metade dos portugueses entre os 25 e 64 anos tem dificuldades em compreender textos simples e curtos, colocando Portugal entre os países com níveis mais baixos de proficiência nesta matéria. Agora, olhemos para o caso da [falta de] literacia financeira. Os números descambam e começa a ser difícil arranjar justificações para que temas ligados a uma melhor gestão, aplicação e investimento de fundos próprios não comecem a ser abordados, de forma básica e gradual, durante a fase de escolaridade obrigatória. Numa dimensão conceptual, Portugal encontra-se consideravelmente abaixo da média da OCDE, pelo que não surpreende que a incerteza económica esteja a causar tanto impacto às carteiras das nossas famílias. Os combustíveis não param de aumentar, a taxa de inflação fixou-se este mês nos 3,3%, igualando o pico máximo do corrente ano, registado entre abril e maio, e o cabaz alimentar básico monitorizado pela DECO Proteste atingiu os 255,97 euros em meados de setembro, mais 18 euros do que em janeiro. Ora, sem o mínimo de literacia financeira que nos permita contornar, da melhor forma possível, o aumento de tudo menos dos salários, torna-se muito difícil resistir a custos de vida desta ordem. Celebre-se, portanto, este Dia Internacional da Literacia, crucial para que não esqueçamos que o caminho é longo e que este é um direito que pode, de facto, mudar muitas vidas.

Dia Internacional da Literacia, mas que literacia?
7 Outubro 2026

